Cobrir uma guerra, acompanhar uma operação militar, registrar os impactos de uma enchente ou relatar uma missão de resgate estão entre os maiores desafios de um jornalista. Em cenários onde o risco é constante e as decisões precisam ser tomadas em segundos, o trabalho desses profissionais jornalista vai muito além da apuração e da produção da notícia. É preciso conhecer protocolos de segurança, compreender a dinâmica das operações, manter o equilíbrio emocional e entender que nenhuma reportagem vale mais do que a preservação da vida.
Foi com esse propósito que a Marinha do Brasil promoveu, na semana passada, a terceira edição do Curso de Cobertura Jornalística em Área de Combate e em Emergências (CCJACE). A capacitação reuniu 76 jornalistas, comunicadores e estudantes de Comunicação de 25 estados brasileiros e do Distrito Federal, selecionados entre um número recorde de 435 inscritos.

Realizado pelo Centro de Operações de Paz e Humanitárias de Caráter Naval (COpPazNav), em parceria com as polícias Militar e Civil do Estado do Rio de Janeiro e o Corpo de Bombeiros Militar, o curso já soma aproximadamente 170 profissionais capacitados desde sua criação, em 2024.
Entre os participantes desta edição, a estagiária de A VOZ DA SERRA, Laís Lima, acompanhou durante cinco dias uma intensa programação de atividades teóricas e práticas voltadas para situações de alto risco.
Imersão na realidade das operações
Ao contrário do que muitos imaginam, a cobertura de conflitos armados, desastres naturais ou grandes operações de emergência exige um preparo específico. Além das técnicas jornalísticas, o profissional precisa conhecer estratégias de deslocamento, primeiros socorros, comunicação em situações críticas e gerenciamento de riscos.
Durante o treinamento, os participantes foram inseridos em simulações inspiradas em cenários reais, vivenciando situações semelhantes às enfrentadas por correspondentes de guerra e jornalistas que atuam em grandes tragédias.
Parte importante da programação ocorreu em ambiente naval. Na Ilha das Flores, os alunos conheceram procedimentos de Defesa Nuclear, Biológica, Química e Radiológica (NBQR), aprendendo como funcionam os protocolos utilizados em situações envolvendo agentes contaminantes.
Os participantes também embarcaram em Carros Lagarta Anfíbio e no Navio de Desembarque de Carros de Combate (NDCC) Almirante Saboia, conhecendo de perto como esses meios são empregados em operações humanitárias, evacuação de comunidades isoladas, transporte de suprimentos e resposta a grandes desastres.
As atividades permitiram compreender que, por trás das imagens que chegam diariamente aos veículos de comunicação, existe uma complexa estrutura logística responsável por garantir o atendimento às vítimas e a segurança das equipes envolvidas.
Muito além da reportagem
Segundo o comandante Fabrício Costa, gerente de Comunicação da Marinha do Brasil, o CCJACE nasceu justamente da necessidade de aproximar a imprensa da realidade operacional das instituições de segurança.
"O curso começou em 2024. Na primeira edição tivemos 40 solicitações de inscrição e selecionamos 34 jornalistas. Hoje recebemos centenas de inscrições de todas as regiões do país. O objetivo é proporcionar uma imersão nas atividades da Marinha e das forças de segurança, especialmente na realidade vivida no estado do Rio de Janeiro", explicou.
Mais do que ensinar procedimentos técnicos, a capacitação busca desenvolver uma consciência sobre os limites da atuação jornalística em ambientes de risco. Em muitos momentos, observar, aguardar orientações e compreender a dinâmica das operações tornam-se atitudes tão importantes quanto registrar os acontecimentos.
Integração entre imprensa e forças de segurança
Outro aspecto destacado pelos organizadores foi a aproximação entre jornalistas e instituições responsáveis pelas respostas às emergências. Ao conhecer os protocolos militares e o funcionamento das operações, os profissionais passam a compreender melhor as decisões tomadas em campo, reduzindo interferências que possam comprometer tanto a segurança das equipes quanto o atendimento às vítimas.
Especialistas que participaram da formação compartilharam experiências vividas em missões nacionais e internacionais, reforçando que planejamento é um elemento indispensável para qualquer cobertura.
Conhecer rotas de fuga, identificar áreas seguras, utilizar corretamente equipamentos de proteção e manter comunicação permanente com a redação são medidas capazes de reduzir significativamente os riscos durante o trabalho.
Desafios do jornalismo contemporâneo
As mudanças climáticas, o aumento da frequência de eventos extremos e a permanência de conflitos em diversas regiões do mundo fazem com que jornalistas sejam cada vez mais chamados para atuar em cenários complexos.
Nesse contexto, iniciativas como o CCJACE demonstram que investir na capacitação dos profissionais também significa fortalecer o direito da sociedade à informação de qualidade.
Uma experiência que permanece
O encerramento da programação contou com uma palestra da jornalista Sônia Bridi, referência nacional na cobertura de temas ambientais, investigações e conflitos internacionais. Com mais de três décadas de carreira, ela compartilhou experiências vividas em diferentes países e destacou a importância da preparação para atuar em ambientes de elevada tensão.

Ao final dos cinco dias de treinamento, a principal lição compartilhada entre os participantes foi que o conhecimento técnico representa apenas uma parte da formação necessária. A capacidade de avaliar riscos, respeitar protocolos e compreender os próprios limites torna-se fundamental para quem escolhe contar histórias em cenários extremos.
Em tempos marcados por guerras, crises humanitárias e eventos climáticos cada vez mais frequentes, preparar jornalistas para atuar nesses ambientes deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade. Afinal, informar com responsabilidade exige coragem, mas, acima de tudo, preparo, sensibilidade e respeito à vida.

Deixe o seu comentário