Marinha treina jornalistas para coberturas de conflitos e emergências

Iniciativa mostrou que informar em cenários extremos exige técnica, planejamento e compromisso com a vida
sexta-feira, 24 de julho de 2026
por Laís Lima*
Foto: Sargento Tonetti
Foto: Sargento Tonetti

Cobrir uma guerra, acompanhar uma operação militar, registrar os impactos de uma enchente ou relatar uma missão de resgate estão entre os maiores desafios de um jornalista. Em cenários onde o risco é constante e as decisões precisam ser tomadas em segundos, o trabalho desses profissionais jornalista vai muito além da apuração e da produção da notícia. É preciso conhecer protocolos de segurança, compreender a dinâmica das operações, manter o equilíbrio emocional e entender que nenhuma reportagem vale mais do que a preservação da vida.

Foi com esse propósito que a Marinha do Brasil promoveu, na semana passada,  a terceira edição do Curso de Cobertura Jornalística em Área de Combate e em Emergências (CCJACE). A capacitação reuniu 76 jornalistas, comunicadores e estudantes de Comunicação de 25 estados brasileiros e do Distrito Federal, selecionados entre um número recorde de 435 inscritos.

Realizado pelo Centro de Operações de Paz e Humanitárias de Caráter Naval (COpPazNav), em parceria com as polícias Militar e Civil do Estado do Rio de Janeiro e o Corpo de Bombeiros Militar, o curso já soma aproximadamente 170 profissionais capacitados desde sua criação, em 2024.

Entre os participantes desta edição, a estagiária de A VOZ DA SERRA, Laís Lima, acompanhou durante cinco dias uma intensa programação de atividades teóricas e práticas voltadas para situações de alto risco.

Imersão na realidade das operações

Ao contrário do que muitos imaginam, a cobertura de conflitos armados, desastres naturais ou grandes operações de emergência exige um preparo específico. Além das técnicas jornalísticas, o profissional precisa conhecer estratégias de deslocamento, primeiros socorros, comunicação em situações críticas e gerenciamento de riscos.

Durante o treinamento, os participantes foram inseridos em simulações inspiradas em cenários reais, vivenciando situações semelhantes às enfrentadas por correspondentes de guerra e jornalistas que atuam em grandes tragédias.

Parte importante da programação ocorreu em ambiente naval. Na Ilha das Flores, os alunos conheceram procedimentos de Defesa Nuclear, Biológica, Química e Radiológica (NBQR), aprendendo como funcionam os protocolos utilizados em situações envolvendo agentes contaminantes.

Os participantes também embarcaram em Carros Lagarta Anfíbio e no Navio de Desembarque de Carros de Combate (NDCC) Almirante Saboia, conhecendo de perto como esses meios são empregados em operações humanitárias, evacuação de comunidades isoladas, transporte de suprimentos e resposta a grandes desastres.

As atividades permitiram compreender que, por trás das imagens que chegam diariamente aos veículos de comunicação, existe uma complexa estrutura logística responsável por garantir o atendimento às vítimas e a segurança das equipes envolvidas.

Muito além da reportagem

Segundo o comandante Fabrício Costa, gerente de Comunicação da Marinha do Brasil, o CCJACE nasceu justamente da necessidade de aproximar a imprensa da realidade operacional das instituições de segurança.

"O curso começou em 2024. Na primeira edição tivemos 40 solicitações de inscrição e selecionamos 34 jornalistas. Hoje recebemos centenas de inscrições de todas as regiões do país. O objetivo é proporcionar uma imersão nas atividades da Marinha e das forças de segurança, especialmente na realidade vivida no estado do Rio de Janeiro", explicou.

Mais do que ensinar procedimentos técnicos, a capacitação busca desenvolver uma consciência sobre os limites da atuação jornalística em ambientes de risco. Em muitos momentos, observar, aguardar orientações e compreender a dinâmica das operações tornam-se atitudes tão importantes quanto registrar os acontecimentos.

Integração entre imprensa e forças de segurança

Outro aspecto destacado pelos organizadores foi a aproximação entre jornalistas e instituições responsáveis pelas respostas às emergências. Ao conhecer os protocolos militares e o funcionamento das operações, os profissionais passam a compreender melhor as decisões tomadas em campo, reduzindo interferências que possam comprometer tanto a segurança das equipes quanto o atendimento às vítimas.

Especialistas que participaram da formação compartilharam experiências vividas em missões nacionais e internacionais, reforçando que planejamento é um elemento indispensável para qualquer cobertura.

Conhecer rotas de fuga, identificar áreas seguras, utilizar corretamente equipamentos de proteção e manter comunicação permanente com a redação são medidas capazes de reduzir significativamente os riscos durante o trabalho.

Desafios do jornalismo contemporâneo

As mudanças climáticas, o aumento da frequência de eventos extremos e a permanência de conflitos em diversas regiões do mundo fazem com que jornalistas sejam cada vez mais chamados para atuar em cenários complexos.

Nesse contexto, iniciativas como o CCJACE demonstram que investir na capacitação dos profissionais também significa fortalecer o direito da sociedade à informação de qualidade.

Uma experiência que permanece

O encerramento da programação contou com uma palestra da jornalista Sônia Bridi, referência nacional na cobertura de temas ambientais, investigações e conflitos internacionais. Com mais de três décadas de carreira, ela compartilhou experiências vividas em diferentes países e destacou a importância da preparação para atuar em ambientes de elevada tensão.

Ao final dos cinco dias de treinamento, a principal lição compartilhada entre os participantes foi que o conhecimento técnico representa apenas uma parte da formação necessária. A capacidade de avaliar riscos, respeitar protocolos e compreender os próprios limites torna-se fundamental para quem escolhe contar histórias em cenários extremos.

Em tempos marcados por guerras, crises humanitárias e eventos climáticos cada vez mais frequentes, preparar jornalistas para atuar nesses ambientes deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade. Afinal, informar com responsabilidade exige coragem, mas, acima de tudo, preparo, sensibilidade e respeito à vida.

 
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