No Dia dos Avós, a Trilha Sonora de um Legado

Entre discos, pickups e abraços, a família Petrillo mostra que a maior herança de um avô pode ser a paixão
sexta-feira, 24 de julho de 2026
por Marcelo Gonzales
DJ Lúcio Petrillo(Foto: Arquivo Pessoal)
DJ Lúcio Petrillo(Foto: Arquivo Pessoal)

Durante quase cinquenta anos, ele escolheu músicas para embalar pistas de dança, programas de rádio, bailes e festas que marcaram gerações de friburguenses. Atrás das pickups ou diante do microfone, DJ Lucio Petrillo ajudou a construir a memória musical de Nova Friburgo, conectando pessoas por meio de canções que atravessaram o tempo. Hoje, porém, a trilha sonora mais importante da sua vida já não vem dos alto-falantes. Ela atende pelos nomes de Gabriela e Arthur.

"A vida inteira eu toquei música para emocionar os outros. Hoje a trilha sonora da minha vida tem voz de Gabriela e Arthur. Ser avô é voltar a ser criança e ser pai duas vezes."

A frase resume uma trajetória iniciada em 1977. Radialista, DJ e um dos pioneiros da profissão em Nova Friburgo, Petrillo fez história na Som Boite, casa noturna que marcou as décadas de 1970, 1980 e 1990. Também levou sua paixão pela música às ondas do rádio, apresentando programas de flashback nas rádios  Caledônia FM e na Sucesso FM, sempre acreditando que "rádio é cultura, é história". Mas o legado que construiu nunca ficou restrito às pistas de dança.

Em casa, entre discos, equipamentos de som e gravações de programas, dois pequenos espectadores observavam cada movimento do pai. Sem perceber, Luciano e Luciana aprendiam muito mais do que técnicas de mixagem. Aprendiam um jeito de viver: "Quando comecei a fazer bailes no Clube dos 50, o Luciano ia comigo e queria aprender. A Luciana nasceu nesse meio e cresceu vendo tudo isso. A música sempre fez parte da nossa rotina."

A influência foi tão natural que nenhum dos dois precisou ser convencido a seguir a profissão. A música simplesmente já fazia parte da família. Hoje, Luciana Petrillo soma mais de uma década de carreira, mais de mil apresentações e se consolidou como uma das principais DJs da Região Serrana. Já comandou o palco principal das comemorações de aniversário de Nova Friburgo, Trajano de Moraes e Sumidouro, além de participar de grandes eventos públicos, culturais e festas de alcance nacional.

Ela conta que suas primeiras lembranças da infância sempre envolvem música: "Eu me lembro de ficar vendo meu pai e meu irmão no estúdio que a gente tinha em casa, gravando programas, tocando e brincando. Eu ficava maravilhada." Quando decidiu transformar aquela convivência em profissão, a escolha pareceu inevitável: "Acho que desde que nasci eu via eles vivendo a música." Além da técnica, herdou do pai uma característica que considera indispensável: "O perfeccionismo, com certeza. E fazer sempre boas mixagens."

Luciano também seguiu o mesmo caminho. Embora tenha sonhado, na juventude, em trabalhar com carros, bastou começar a acompanhar o pai na rádio e nos bailes para descobrir onde realmente estava sua paixão: "Quando comecei a acompanhar meu pai na rádio e nos bailes, aflorou minha paixão pela música." Entre tantos ensinamentos recebidos, um continua acompanhando sua carreira: "Música boa não tem idade. Sempre confie nos seus ouvidos e toque olhando para a pista."

Curiosamente, apesar de pai, filha e filho seguirem a mesma profissão, existe um detalhe que surpreende até a própria família: "Nunca tocamos os três juntos", conta Luciana, entre risos.

Talvez esse encontro ainda esteja reservado para o futuro. E quem sabe com a participação da quarta geração.

Quando perguntado se acredita que conseguirá convencer os netos a seguirem o mesmo caminho, Petrillo responde sem hesitar: "Já nasceu com eles. Acho que eles vão ver a tradição que deixei. Meu amor pela música está no sangue." A resposta faz sentido para quem acredita que heranças não são apenas materiais: "Minha herança para vocês é simples: caráter, música e lembranças. O resto a vida ensina."

Se a música aproximou pai e filhos, a chegada dos netos deu um novo significado a tudo aquilo que ele viveu. "Ontem eu embalava meus filhos com música. Hoje a Gabriela e o Arthur me embalam com carinho. Ser avô é ver a vida recomeçar."

Quando os três imaginam reunir a família em volta de uma vitrola ou de uma pista de dança para tocar apenas uma canção, as escolhas revelam muito sobre quem são. Petrillo lembra "Sal da Terra", de Beto Guedes. Luciano escolhe "Emoções", de Roberto Carlos, porque acredita que ela traduz o verdadeiro sentido da vida.

No fundo, porém, talvez nenhuma música consiga representar melhor essa família do que o silêncio que existe entre um abraço e outro. Um silêncio preenchido por memórias, ensinamentos e afeto.

No Dia dos Avós, DJ Petrillo deixa uma mensagem simples, mas carregada da experiência de quem passou quase meio século escolhendo trilhas sonoras para a vida de outras pessoas: "Coloque música, cante, dance, faça bagunça. A melhor trilha sonora da vida é a voz dos netos."

Porque algumas canções terminam quando acaba a festa. Outras atravessam gerações. E, quando isso acontece, deixam de ser apenas música para se tornarem família.

 
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