Médica, musicista, avó e agente cultural, Lúcia Rebel encontrou na maturidade um novo tempo para sonhar. Entre consultórios, rodas de samba e o carinho dos quatro netos, ela mostra que nunca é tarde para redescobrir antigos sonhos.
A trajetória de Lúcia Rebel mostra exatamente o contrário para aqueles que pensam que os grandes sonhos pertencem apenas à juventude. Aos 69 anos, ela vive uma fase em que Medicina, música, família e comunidade caminham juntas, dando novos sentidos a uma história construída com dedicação e sensibilidade.
Filha e neta mais velha de uma família com raízes no Líbano, França e Espanha, escolheu Nova Friburgo para viver e exercer a Medicina há mais de três décadas. A paixão pela música nasceu ainda na infância, ouvindo o melhor da música brasileira, jazz e as canções dos filmes que assistia com a mãe. O violão chegou cedo, acompanhando-a também nos tempos da faculdade, quando animava encontros entre colegas.

Depois vieram a profissão, o casamento e os três filhos. A música ficou em segundo plano, aguardando o momento certo para voltar. Esse reencontro aconteceu em 2015, quando passou a frequentar Lumiar e integrou o coral Timbres e Temperos, conduzido pela multiartista Luhli.
O convite para cantar novamente abriu portas para uma intensa trajetória artística. Das reuniões entre amigas nasceu o grupo PenDrive. Pouco tempo depois, surgiu o Folia dos Peões, criado para aproximar antigos moradores de Lumiar daqueles que escolheram a região para viver.

O projeto cresceu, tornou-se Ponto de Cultura e fortaleceu ainda mais os laços da comunidade. Em seguida veio a roda de samba As Meninas do Folia, formada exclusivamente por mulheres e dedicada aos clássicos do samba de raiz. Hoje, Lúcia também integra o Duo LuAl, ao lado da cantora Alba Lírio. Onde relata que "Cada apresentação traz histórias e lembranças, de onde viemos e até onde chegamos."
Para ela, a maturidade trouxe liberdade. Sem a ansiedade da juventude, canta hoje com mais emoção do que preocupação técnica. O aprendizado continua constante, mas agora guiado pelo prazer de compartilhar música.
Ela enxerga uma profunda ligação entre suas duas vocações: "A Medicina e a Música têm como finalidade a harmonização do corpo e da alma."
Essa visão explica por que fala tão pouco de sucesso e tanto de encontros, pertencimento e bem viver.
O Legado de uma Avó
A música também atravessa sua família. Os três filhos seguiram caminhos ligados à arte e os quatro netos receberam nomes inspirados em canções e artistas brasileiros: Caetano, Francisco, Cecília e Helena.

Quando eram pequenos, ela os embalava na rede cantando músicas do MPB4 para crianças e canções de A Arca de Noé, de Vinicius de Moraes. Hoje, faz questão de acompanhar o crescimento de cada um, mesmo conciliando a rotina entre apresentações e a Medicina. "Espero que eles se lembrem de mim como uma avó bem-humorada, que seguiu fazendo o que a fazia feliz."
Ao recordar os próprios avós, Lúcia fala do violão, do piano, dos passeios e das canções que marcaram sua infância. São lembranças que hoje deseja transmitir às novas gerações.

Mais do que ensinar música, espera deixar o exemplo de que nunca existe idade para aprender, criar, recomeçar e viver com entusiasmo. Porque alguns sonhos, na verdade, apenas esperam o momento certo para voltar a cantar.

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