Passado o Dia das Mães, celebrado no último domingo, 10, o clima de afetividade e homenagens àquelas que geram a vida continua ao longo do mês dedicado às mães, porque, afinal, ser mãe costuma vir acompanhado de expectativas sociais bem definidas. Existe uma imagem construída do que seria a maternidade “típica”: fases previsíveis, marcos de desenvolvimento esperados e uma rotina que, apesar dos desafios, segue um roteiro conhecido. Mas para milhares de mulheres, a maternidade segue por outros caminhos, bem menos previsíveis, mais intensos e profundamente transformadores. É o que se chama de maternidade atípica.
O termo descreve a vivência de mães de filhos com deficiências, síndromes raras, doenças crônicas ou transtornos do neurodesenvolvimento, como o autismo. Uma realidade marcada por terapias, busca por direitos, adaptações constantes e uma rotina de cuidados que exige reinvenção diária. A maternidade atípica não começa com preparo. Ela começa com descoberta.
“Quando o autismo chega, ele não avisa”, resume Isabella Stutz, mãe de Pedro, 16 anos, e Enzo, 7 (autista nível 2 suporte). Para ela, o diagnóstico ampliou o próprio significado de maternar. “Aprendi a colocar meu filho antes do diagnóstico ou rótulo. Descobri uma força única e um amor que nos leva a falar, gritar e ir além.” Nas salas de espera das terapias, ela descreve uma realidade silenciosa: mães cansadas, carregando incertezas e medos. Um recado para as mães, ela diz: “Procure uma rede de apoio. Falar alivia o peso que carregamos.”

A jornada inclui enfrentar filas, conciliar trabalho e casa com múltiplas terapias, passar períodos no hospital por cirurgias, processar planos de saúde para garantir tratamentos e a luta com entes públicos em busca de inclusão. Mais do que atividades extracurriculares, trata-se de lutar por acesso, autonomia e qualidade de vida.
O próprio vocabulário evoluiu. Assim como “pessoa com deficiência” substituiu expressões ultrapassadas, a palavra “atípico” surge como convite à reflexão sobre quem são essas pessoas e quais barreiras ainda enfrentam.
Gabriela Bastos, mãe de Lívia, 15 anos, e Giovanna, 6, autista nível 1 de suporte, resume a transformação: “Há dias em que me sinto insuficiente. Mas há dias em que me sinto gigante, principalmente quando preciso levantar a voz para garantir direitos básicos”, conta Gabriela.

Já para Tayanne, mãe de Lucas e Gael (nível 3 suporte e doença rara), a maternidade atípica é aprender uma nova linguagem. “Um idioma feito de olhares, gestos e pequenas conquistas que o mundo nem sempre percebe. É ser ponte entre meu filho e um mundo que ainda está aprendendo a acolher”, diz.

Maria Carolina Spitz vive a maternidade atípica em múltiplas camadas: recebeu diagnóstico tardio e é mãe de três filhos, dois deles com TEA (Transtorno do Espectro Autista). “Aprendi a observar o que passa despercebido. Pequenos sinais viram informações preciosas para a equipe multidisciplinar”, relata Maria Carolina, que tem uma rotina intensa e guiada por um objetivo: autonomia na vida adulta.
“Toda mãe atípica carrega um medo silencioso: o dia em que não estaremos mais aqui. É isso que nos move a construir hoje uma base sólida para o amanhã”, completa Maria Carolina.
O termo maternidade atípica nasceu para dar visibilidade a essa jornada dupla dentro da maternidade. Neste mês das mães, essas histórias lembram que não se trata de heroísmo romantizado, mas de presença, mobilização e amor, um amor que ultrapassa diagnósticos e encontra, todos os dias, novas formas de existir.
Políticas de proteção às mães
Neste mês das mães, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) anunciou a ampliação de políticas públicas voltadas à proteção, acolhimento e valorização das mães fluminenses. Nos últimos anos, as leis propostas e aprovadas pela Alerj reforçaram os direitos das mulheres que exercem diariamente a maternidade.
Entre outras iniciativas, destacam-se a prioridade de atendimento para mães atípicas em órgãos públicos e estabelecimentos privados; a criação de políticas de apoio psicológico e social para mães de crianças com deficiência ou transtornos do neurodesenvolvimento; a garantia de acompanhantes e assistência humanizada durante o pré-natal, parto e pós-parto.
Outra proposta relevante aprovada pela casa reforça o combate à violência obstétrica, determinando que maternidades e hospitais públicos divulguem canais oficiais de denúncia para gestantes, puérperas em todo o Estado do Rio de Janeiro. Além de programas de combate à violência doméstica e proteção às mulheres responsáveis pelo sustento da família.
Também foram aprovadas medidas de incentivo à qualificação profissional e geração de renda para mães em situação de vulnerabilidade social, campanhas de conscientização sobre saúde materna, depressão pós-parto e aleitamento materno, além de ações de inclusão e acessibilidade para mães e crianças em espaços públicos e a ampliação de direitos relacionados à maternidade no serviço público estadual.

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