Durante décadas, conquistar a casa própria foi tratado como uma das maiores metas da vida adulta no Brasil. Era símbolo de estabilidade, independência e segurança financeira. Mas, para uma parcela crescente da juventude brasileira, esse sonho vem sendo empurrado para um futuro cada vez mais distante e, em muitos casos, indefinido.
A combinação entre imóveis mais caros, juros elevados, dificuldade para conseguir financiamento e renda apertada está mudando o comportamento Geração Z, formada pelos jovens nascidos entre 1997 e 2012. Ao mesmo tempo em que muitos ainda desejam ter um imóvel no futuro, a compra deixou de ser prioridade imediata e passou a competir com outras urgências financeiras, como pagar aluguel, manter estudos, garantir estabilidade profissional e até ajudar a família.
Mudança no mercado imobiliário
O sonho da casa própria continua existindo, mas ficou financeiramente mais difícil de alcançar. É o caso de Lucas Almeida, de 27 anos, analista de marketing e morador de Nova Friburgo. Formado há três anos e empregado com carteira assinada, ele conta que imaginava comprar um apartamento antes dos 30 anos. Hoje, porém, a realidade é outra.
“Quando comecei a trabalhar, achava que era só juntar dinheiro por alguns anos e financiar. Mas cada vez que olho os preços ou faço simulação no banco, parece impossível. O valor da entrada já é muito alto e as parcelas ficam maiores do que meu salário consegue acompanhar”, relata.
Lucas mora de aluguel com a namorada e diz que, por enquanto, prefere manter a estabilidade financeira do que assumir uma dívida de décadas. “Tenho amigos que voltaram para a casa dos pais porque não conseguiram manter o aluguel, contas e ainda guardar dinheiro. A gente cresceu ouvindo que comprar imóvel era segurança, mas hoje parece um luxo”, afirma.
Dados da PNAD Contínua 2025 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE) mostram que a proporção de brasileiros vivendo em imóveis alugados subiu de 18,4% em 2016 para 23,8% em 2025. O total de pessoas morando de aluguel saltou de 12,2 milhões para 18,9 milhões no período, um aumento de 55%.
Enquanto isso, os domicílios próprios e quitados caíram de 66,7% para 60%. Ao mesmo tempo, os preços dos imóveis continuam avançando acima da capacidade financeira de boa parte da população.
Segundo o Índice FipeZAP, os imóveis residenciais tiveram valorização de 6,52% em 2025, a segunda maior alta dos últimos 11 anos. Em dezembro do ano passado, o preço médio nacional chegou a R$ 9.611 por metro quadrado.
O valor médio da locação residencial passou de R$ 30,37 por metro quadrado em março de 2020 para R$ 52,34 em março de 2025, uma alta de 72% em apenas cinco anos. Com os custos subindo em praticamente todas as áreas da vida, muitos jovens passaram a adiar a saída da casa dos pais. Hoje, cerca de um em cada quatro brasileiros entre 25 e 34 anos ainda vive com a família.
Impactos
Especialistas apontam que essa mudança pode trazer impactos importantes para o futuro do setor imobiliário. Isso porque o mercado historicamente depende da entrada constante de novos compradores, principalmente jovens adultos iniciando a vida financeira. Se essa geração demora mais para comprar, ou simplesmente desiste temporariamente, o setor pode enfrentar desaceleração nos próximos anos, especialmente no segmento voltado à classe média.
Enquanto programas habitacionais subsidiados, como o Minha Casa Minha Vida, do Governo Federal, seguem aquecidos, os financiamentos feitos pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), principal modalidade usada pela classe média, recuaram mais de 20% em 2025.
Com a taxa Selic em 14,5% ao ano, os financiamentos imobiliários oferecidos pelos grandes bancos giram entre 11% e 12% ao ano, além da Taxa Referencial (TR). Isso significa parcelas mais altas, exigência maior de renda e contratos que podem durar até 30 anos.
Atualmente, as instituições costumam financiar entre 65% e 70% do valor do imóvel. O restante precisa ser pago à vista pelo comprador, além de despesas como ITBI, escritura e cartório.
O sonho ainda continua
Apesar disso, pesquisas mostram que o interesse pela compra ainda existe. Um levantamento da Brain Inteligência Estratégica apontou que 56% da Geração Z pretendem adquirir um imóvel nos próximos meses. O problema não é a falta de vontade, mas sim a dificuldade financeira para transformar o plano em realidade.
Nas redes sociais, o assunto virou debate entre uma geração que tenta equilibrar sonho e sobrevivência. Em fóruns online e discussões na internet, jovens relatam frustração ao perceber que, mesmo trabalhando e estudando, continuam distantes da possibilidade de financiar um imóvel.
Para o mercado imobiliário, o desafio agora será encontrar formas de dialogar com uma geração que cresceu vendo a casa própria como objetivo de vida, mas que chegou à fase adulta em um cenário econômico completamente diferente do vivido pelos pais.
(Com informações do portal de notícias Exame)

Deixe o seu comentário