Entre vaias e privilégios, parte da Câmara escolheu ao próprio bolso

A votação ocorreu com 19 vereadores presentes. Onze votaram a favor
quarta-feira, 27 de maio de 2026
por Lucas Barros
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

A Câmara Municipal de Nova Friburgo aprovou um auxílio-alimentação de R$ 50 por dia útil para os vereadores da cidade. Ao final do mês, o valor gira em torno de R$ 1 mil por parlamentar. O projeto foi aprovado por 11 votos favoráveis e oito contrários, em meio a vaias da população presente no plenário.

A votação ocorreu com 19 vereadores presentes. Onze votaram a favor: Janio Carvalho (União Brasil), Carlinhos do Kiko (PL), Cascão do Povo (Podemos), Walace Piran (PL), Dr. Bruno Silva (MDB), Tia Karla (Republicanos), Max Bill (MDB), Evandro Miguel (MDB) e Dirceu Tardem (PL). Oito votaram contra: Maicon Gonçalves (Mobiliza), Marcos Marins (PSD), Maiara Felício (PT), Cláudio Damião (PT), Ghabriel do Zezinho (Solidariedade), Romulo Pimentel (Podemos), Christiano Huguenin (PP) e José Carlos Schuabb (União Brasil).

Importante começar essa coluna com muita clareza e lucidez: a indignação popular não nasce exatamente do valor. Mil reais por mês, dentro do orçamento de um município inteiro, não representam um colapso financeiro. Não é esse o ponto central da revolta. O problema é o símbolo. O momento. O recado que se passa quando a prioridade da pauta política parece, mais uma vez, olhar primeiro para dentro da própria Câmara do que para fora dela.

Há menos de uma semana, o Hospital Municipal Raul Sertã foi alvo de autuações pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ). A decisão cita irregularidades graves nas refeições da unidade, incluindo larvas, cabelo e até caramujo em salada servida aos pacientes. Em paralelo, alguns vereadores parecem preocupados em não precisar gastar parte do próprio salário para almoçar.

E é justamente nesse cenário que a Câmara decide mobilizar tempo político para votar um benefício próprio. Talvez por isso a reação tenha sido tão negativa. Porque o cidadão comum olha para a própria realidade e percebe que, quando servidores brigam por reajustes mínimos em auxílio-alimentação, frequentemente enfrentam resistência, discursos de austeridade e debates intermináveis sobre impacto financeiro. Professores, por exemplo, muitas vezes precisam lutar por valores muito inferiores, como se cada pequeno aumento colocasse em risco toda a saúde fiscal do município.

Mas, quando o assunto envolve o próprio Legislativo, a tramitação parece ganhar velocidade diferente. A população não se revolta apenas com números — revolta-se com contrastes.

E aqui cabe um cuidado importante: criticar essa votação não significa defender que vereador tenha que trabalhar sem estrutura ou sem condições adequadas. Política séria exige dedicação, disponibilidade e responsabilidade. O problema não é existir remuneração ou benefício. O problema é quando a prioridade política se desconecta completamente do sentimento das ruas — e da realidade da cidade.

Em momentos de crise, a população espera sensibilidade. Espera exemplo. Espera que os representantes entendam que política também é percepção, timing e responsabilidade coletiva. Porque, no fim, o problema nunca foi apenas o valor do auxílio. O problema é a sensação de que, enquanto a cidade tenta sobreviver às próprias urgências, parte da política continua discutindo conforto.

E talvez o mais perigoso disso tudo seja o desgaste gradual da confiança pública. Porque decisões assim alimentam a percepção de que parte da política local se afastou da realidade cotidiana da cidade. Uma cidade onde há ruas abandonadas, mato alto, buracos recorrentes, dificuldades na saúde e uma constante sensação de improviso administrativo.

A votação simboliza uma classe política que, muitas vezes, parece mais eficiente quando o assunto envolve benefício próprio do que quando envolve o sofrimento da população. Simboliza uma desconexão perigosa entre prioridade institucional e necessidade pública.

No fim das contas, não são os R$ 50 por dia que produzem tanta indignação. É o que eles simbolizam. E isso pesa ainda mais quando falamos de vereadores que já possuem salários superiores a R$ 14 mil mensais líquidos— valor que, para a realidade de Nova Friburgo, está longe de ser baixo.

A discussão, portanto, não deveria ser apenas financeira. Ela é moral, política e simbólica. Porque toda decisão pública carrega uma mensagem. E a mensagem transmitida nesta semana foi péssima: R$ 50 no prato e zero constrangimento no plenário.

Não é o valor — é o recado. E o recado que muitos friburguenses ouviram foi simples e cruel: para alguns vereadores, garantir o próprio almoço parece continuar sendo mais urgente do que enfrentar os problemas reais da cidade.

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