O aumento do endividamento no Brasil começa a produzir efeitos que vão além das estatísticas e já se refletem diretamente na forma como o brasileiro trabalha. Com 81,7 milhões de pessoas inadimplentes, o país vê se consolidar uma rotina marcada pela soma de jornadas, improviso financeiro e busca constante por novas fontes de renda.
Não é apenas a quantidade de devedores que chama atenção. O volume total das dívidas avançou em ritmo ainda mais acelerado, o que indica um comprometimento maior da renda ao longo do tempo. Na prática, isso reduz a capacidade de reorganização financeira e prolonga a permanência no vermelho.
Insatisfação entre trabalhadores
Esse cenário ajuda a explicar por que o trabalho extra deixou de ser pontual. Levantamento do Datafolha mostra que 45% dos brasileiros recorreram recentemente a alguma atividade para complementar ganhos. A pesquisa entrevistou 2.002 pessoas, em 117 municípios.
Os dados apontam que cerca de 59% dos entrevistados consideram o salário insuficiente para pagar as despesas. Entre quem ganha até dois salários mínimos, esse número cresce para 73%. Além disso, as mulheres lideram a porcentagem de pior percepção financeira, com 44%, enquanto os homens chegam a 36%.
Esse número é relacionado às dívidas, grande parte da porcentagem representada por mulheres afirma que passam ou já enfrentaram o endividamento. Elas também classificam sua vida financeira como ruim ou péssima, relatando mais insegurança e desânimo que os homens.
Os dados também apontam que 40% relataram queda no orçamento familiar nos últimos meses, o número aumentou entre pessoas de 35 a 44 anos, chegando a 49% na pesquisa. Além disso, o recorte revela que a busca por renda extra é mais comum entre pessoas com maior escolaridade. De acordo com a pesquisa, isso pode ocorrer porque esses grupos tendem a estar mais inseridos dentro do mercado de trabalho, mesmo com oportunidades precárias de aumentar o salário. A consequência aparece na reorganização da rotina.
Busca por renda extra
O que antes era dividido entre trabalho e tempo livre passa a ser ocupado por uma segunda ou até terceira fonte de renda. Como é o caso de Juliana Moreira, de 36 anos, moradora de Nova Friburgo. Durante o dia, ela trabalha como designer, e no tempo livre, vende doces e trabalha como freelancer em restaurantes de delivery.
Juliana iniciou essa jornada tripla para compensar as dívidas do cartão de crédito, feitas em 2023 e que continuam crescendo. “Comecei porque o salário não estava dando conta das coisas básicas e com as dívidas a situação foi piorando”, conta.
O avanço da inadimplência não ocorre de forma isolada. Ele é combinado com o aumento do custo de vida, renda estagnada e maior uso de crédito para cobrir despesas correntes. Com menos margem para absorver imprevistos, qualquer desequilíbrio, como uma conta mais alta ou um gasto inesperado, pode empurrar o consumidor para o atraso. E é aí que o uso do cartão de crédito aparece.
Tecnologia no mercado de trabalho
A expansão de aplicativos e plataformas digitais facilitou o acesso a atividades remuneradas, permitindo que trabalhadores encontrem alternativas rápidas para complementar a renda.
Ao mesmo tempo, essa facilidade contribui para um novo padrão: jornadas fragmentadas, ganhos variáveis e ausência de previsibilidade. Para quem já está endividado, essa instabilidade pesa. O dinheiro extra costuma ter destino certo antes mesmo de chegar, quitar parcelas atrasadas, pagar juros ou cobrir despesas acumuladas.
“Consigo uma boa renda extra, que, infelizmente, vai toda para minha dívida”, lamenta Juliana. A expansão da renda extra no Brasil está diretamente ligada à dificuldade de fechar as contas no fim do mês. Quando o salário principal não cobre despesas básicas, atividades paralelas deixam de ser uma escolha e passam a ser incorporadas ao planejamento financeiro.
O que diferencia o momento atual de períodos anteriores é a permanência dessa estratégia. Em vez de recorrer ao “bico” de forma ocasional, muitos trabalhadores passaram a depender continuamente dessa renda adicional. Com isso, o tempo livre diminui, a jornada se estende e o equilíbrio entre trabalho e descanso se torna cada vez mais frágil.
Entre o esforço e o limite
O avanço dos “freelas” costuma ser associado à ideia de iniciativa ou empreendedorismo. Mas, no contexto atual, ele revela algo mais complexo: a necessidade de compensar perdas. Trabalhar mais, hoje, não significa necessariamente melhorar de vida. Em muitos casos, significa apenas evitar que a situação se agrave.
Juliana reconhece esse limite com clareza: “Eu trabalho mais do que antes, mas não sinto que estou avançando. Só estou conseguindo manter as coisas em dia”, explica.
(*) Estagiária com supervisão de Henrique Amorim

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