Mulheres do Brasil

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

quarta-feira, 22 de julho de 2026
por Robério Canto

Lá vão elas. Dentistas, garis, professoras, donas (?) de casa

Digamos que se chamasse Jhoanna, com h e dois NNs, porque a mãe não queria que ela parecesse uma Joana qualquer, como outras que havia pelo bairro. Mas Jhoanna não era diferente, menina como tantas meninas, mulher como tantas mulheres. Não tinha essa beleza toda, mas também não era feia. Virtudes e defeitos, planos e sonhos. Os sonhos, nada extraordinários, foram se concretizando, ou quase: planejou ser professora, mas parou no Ensino Médio. Trabalhou de balconista, fez concurso, se tornou funcionária pública. Salário que dava para o essencial, mais o batom e um vestido novo de vez em quando. Felicidade mediana, nem mais nem menos do que precisava para ser feliz.

Digamos que se chamasse Ronaldo, sem nenhuma invencionice no nome. Jogava futebol de mesa, cerveja nos fins de semana, profissão protético. Gabava-se de que muita gente devia a ele o sorriso que ostentava pelas ruas. Achava injusto que os dentistas tivessem mais lucro com seu trabalho do que ele. Revoltava-se. Certa vez quebrou uma peça menos perfeita, culpando pelo insucesso o profissional que a encomendara: “Incompetente!” Namorara muitas e, para falar a verdade, tinha engravidado uma delas, de cuja consequência se livrou sem dificuldade, graças a algumas próteses que tinha acabado de entregar na ocasião.

Quando conheceu Jhoanna, apaixonou-se. Namoro, casamento, uma filha. Impôs algumas condições para a união, uma delas que a noiva parasse com os estudos e abandonasse a ideia de ser professora: “Ensinar Geografia não dá camisa a ninguém”. Estabeleceu horário de chegada, proibiu certas roupas. Café da manhã na mesa, antes que ele saísse para o trabalho. E tratasse de aprontar a filha e levá-la para a creche. Um dia, aborrecido sabe-se lá com o quê, deu um empurrão em Johanna. Pedido de perdão, acompanhado de muitos carinhos. Ao perdão seguiu-se o primeiro tapa, compensado com uma ida ao cinema. A primeira surra foi por causa de um homem que olhou para ela na rua.

Na terceira vez que apanhou, Jhoanna fugiu para a casa dos pais, cuja porta ficou marcada com os chutes de Ronaldo. Medida protetiva, sem nenhuma proteção. Defendeu-se como pôde das facadas, mas ficaram as cicatrizes. Sobreviveu, perguntando-se seguidamente em que momento tinha morrido o Ronaldo tão bonzinho e o monstro tinha brotado das profundezas. Não sabia responder. Largou o emprego, despediu-se dos pais, pegou a menina no colo e foi viver em lugar até agora incerto e não sabido.

Jhoanna não é nenhuma personagem heroica. É apenas uma brasileira comum, exceto pelo nome rebuscado. Tal qual ela, muitas são as que vão levando a vida, julgando-se senhoras de si mesmas, até que um gentil cavalheiro as toma pelas mãos e, nem gentil nem cavalheiro, passa a tratá-las como um objeto que adquiriram e marcaram com seu sobrenome. Maria da Silva, de Souza, de Oliveira? Não importa: tem dono. E o que começou como promessa de paraíso virou purgatório e inferno.

Lá vão elas. Dentistas, garis, professoras, donas (?) de casa. O que as espera quando chegarem ao lar, sweet home? Rezemos por elas, não porque sejam melhores do que os homens, que também precisam de oração e consolo. Mas porque estão sujeitas a maiores riscos, porque cuidam de si, dos filhos e dos maridos, e às vezes nem sabem por que são agredidas. Sim, as agredidas são exceções, mas, em 2024, na Pátria Mãe Gentil, 3.642 foram assassinadas pelos seus companheiros. Rezemos pelas mulheres do Brasil, pelas que são felizes e tanto mais pelas que são, tristemente, apenas mulheres do Brasil.

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Microconto: Imprudência

O carteiro acreditava no velho ditado “Cão que ladra não morde” e atravessou o portão. Passou dois meses sem poder se sentar direito.

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

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