Memórias de um estudante

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

quarta-feira, 29 de abril de 2026
por Robério Canto

Você já viu sujeira matar alguém? Agora banho...

Eu até tinha destaque entre os meninos da escola pública onde estudava. Não porque tivesse melhor cabeça, mas porque os demais moleques priorizavam os banhos de rios e as peladas nos terrenos baldios do bairro, desaparecendo da sala de aula e assim diminuindo a ocorrência. Pudesse eu fazer o mesmo! Mas minha santa mãe me vigiava, acreditando que eu era muito inteligente, coisa que, aliás, ela pensava também dos outros quatro filhos (quanto a mim, enganou-se redondamente). Como não me era dada a opção de vadiar, o jeito era prestar atenção às aulas.

Para falar a verdade, eu não acreditava em tudo que ensinavam, embora não ousasse desmentir as professoras. Por exemplo: elas afirmavam que o Rio Amazonas tinha 6.400 km. Eu não sabia bem o que era um quilômetro, mas 6.400 devia ser muita coisa. Olhava então o Bengalas e não achava possível que outro pudesse ser tão superior ao rio da minha cidade.

Minhas aulas preferidas eram aquelas em que a professora lia histórias para os alunos. Foi assim que, sentado no duro banco da carteira, pela primeira vez pus os pés na infindável estrada da literatura, por onde, embora aos tropeções, vou caminhando até hoje. Já naquela época eu intuía que a matemática era uma coisa inventada para torturar as crianças, o que me levou a declarar, anos mais tarde, que gostar de matemática não era um dom, mas um desvio de personalidade.

Não fui agredido porque os professores presentes eram meus amigos e sabiam que, no fundo, eu tinha ─ e tenho ─ inveja de quem sabia lidar com os números e seus correlatos. Mas vejam como a vida é uma coisa incoerente! Foi justamente em matemática que ganhei o maior elogio da minha vida intelectual. A professora fez uma pergunta difícil, algo como "Quanto é 8 x 4?” Num impulso, respondi 32, sem saber o que estava falando. “Esse já está aprovado”, comentou a diretora que, por acaso e para minha glória, ia passando pelo corredor.

Me lembro com carinho das professoras que tive na infância. Tantos anos se passaram que já esqueci o nome e a aparência delas. Mas o carinho ficou: difuso, mas verdadeiro. E me lembro de alguns colegas de personalidade assaz marcante. Um deles, a quem atualmente dou o nome de Paulão, era especialista em teorias científicas. Dentre elas, a de que banhos frequentes faziam mal à saúde. Paulão não era apenas um teórico, bastava passar perto dele para sentir o cheiro de quem praticava a tese que defendia. "Você já viu sujeira matar alguém? Agora banho... a gente pega um resfriado e, oh, já era!" Outra de suas teses garantia que lavar a cabeça era a principal causa da queda de cabelos. E apresentava a prova do que dizia: "Olha os alemão da fábrica. Tudo careca. Por quê? Porque vivem lavando a cabeça. Meu pai só toma banho de vez em quando e tem mais cabelo que a alemoada toda”.

Isso foi no tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, e a linguiça, além de carne, tinha trema. Atualmente, um aluno pode dizer que a professora nunca viu o Rio Amazonas e, portanto, não sabe o que está falando. Se alguém corrigir o menino, no dia seguinte os pais procuram a direção do colégio para ensinar que as professoras atualmente estão muito mal preparadas. Bons tempos em que o adulto falava, certo ou errado, a gente enfiava a viola no saco e ia jogar bola ou tomar banho de rio. Ou à aula, se não tivesse como evitar!

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

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