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Carta ao futuro
Robério Canto
Escrevivendo
No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."
Um brasileiro que tenha algum juízo e não dê muito azar, passa dos 80
Estou escrevendo para você, mas não sei se esta carta chegará às suas mãos feitas de segundos e milênios. Acho que nunca nos conheceremos ─ você está sempre à frente. Tipo muito estranho, simultaneamente parece estar aqui pertinho e a uma distância infinita. Infinito é bem uma palavra que combina com você. Estamos em dois mil e vinte e cinco, numa das muitas maneiras que o homem inventou para dividir o tempo em pedaços. Tempo é outra palavra que lhe cai bem. Tempo e espaço: futuro.
Atualmente, é de desanimar. Coisas tristes se multiplicam por todo lado. Guerras, injustiças, violências, todo tipo de safadeza. Quando você chegar, talvez as coisas tenham melhorado, e você nem acreditará que no passado havia crianças que morriam de fome, num mundo de fartura, em que grande parte do alimento produzido pela terra virava lixo. Tem espaço para todo mundo, mas todo mundo vive brigando por espaço: países poderosos invadem os mais fracos, motoristas são capazes de sair aos socos e pontapés por uma vaga para estacionar. As ruas estão cheias de carros que poluem os céus, os céus estão cheios de aviões e, embora as ruas sejam muitas e os céus um sem tamanho de grande, carros se atiram uns contra os outros, e os aviões às vezes despencam do céu.
Mas toda moeda tem muitos lados, além dos que são visíveis mesmo aos olhos mais distraídos. Há muita gente empurrando para trás a maré suja. Vivemos hoje mais do que nunca. Há cem anos, a média de vida no mundo era de míseros 32 anos: não dava nem tempo pra gente se acostumar. Aqui no Brasil não se passava dos 35: mal se saía da adolescência e já era hora de ir embora. Agora um brasileiro que tenha algum juízo e não dê muito azar, passa dos 80. Às vezes ainda tem prorrogação.
Houve uma época em que homens eram jogados numa arena, onde deviam se matar para distração dos poderosos e da plebe rude. Atualmente a vida ainda é bastante frágil, mas é geralmente considerada um bem sagrado, intocável. E as mulheres, por séculos ignoradas (só Jesus deu atenção a elas), estão abrindo caminhos e se fazendo ouvir, ainda que tantos se façam surdos e cegos aos sinais dos novos tempos. Muitos trabalham pela paz e pela justiça, trabalho cansativo, infindável, que precisa ser retomado a cada dia, mas que sempre anuncia uma alvorada possível.
Acostumei-me a ver frequentemente uma jovem caminhando, alegre e despreocupada. Um dia, notei que ela estava diferente, e logo depois a barriga evidenciava que ela havia se transformado em duas. Passaram-se alguns meses sem que eu a visse, até que ela reapareceu, empurrando um carrinho de bebê. E o bebê já está andando, daqui a pouquinho estará correndo pelos mesmos lugares onde sua mãe ontem passeava. Existe uma roseira... já falei sobre ela. Há mais de 20 anos insiste em dar flor, num pedaço de terra assim estreito.
Enfim, a vida resiste e eu espero que os homens não a destruam, sufocando a natureza ou disparando bombas. Que ela chegue até você, melhor, mais leve, mais livre, mais segura. Insha allah, oxalá, queira Deus!
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MICROCONTO: MAIS UM
Cansado de tanto fracasso, resolveu jogar-se do oitavo andar. Mas o paletó prendeu-se na janela e ele ficou pendurado até a chegada dos bombeiros.
Robério Canto
Escrevivendo
No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."
A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

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