Começar um livro pelas últimas páginas?!

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 18 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Será possível isto acontecer?! Pois é. Aconteceu comigo durante muitos anos. A minha avó Carmem era tradutora de romances de bolso da Editora Bruguera, fundada em 1910, e que hoje não existe mais. Vovó tinha uma coleção desses romances, e eu, já entrando na adolescência, os lia com frequência quando estava em sua casa, posto que as histórias alimentavam meus sonhos ingênuos e apaixonados*. Porém quando os conflitos surgiam na trama, eu buscava as duas últimas páginas para saber se a história teria um final feliz. Com o tempo, antes mesmo de começar a ler, eu abria o livro no final. Se o final não me enternecesse, eu deixava o livro de lado e procurava outro. Agora, narrando esse fato inusitado, me dou conta que aquele jeito de começar a ler favoreceu a construção e o desenvolvimento do meu hábito de ler e gosto pela leitura.

No Clube de Leitura Vivências, lendo o livro de Lázaro Ramos, “Na nossa pele”, lançado pela Objetiva, ele aborda uma situação similar. Ao ler em voz alta para sua mãe acamada, descobriu que ela gostava de saber logo o final pelas mesmas razões que as minhas.

Aí, meus amigos leitores, fiquei com a pergunta; “por que eu não queria ler uma história que terminasse com tristezas?”. De fato, quando assisto a um filme ou leio uma história que não acaba bem, não gosto. Guardei esse sentimento ao longo da vida sem ter me dado conta da maneira como encaro a tristeza, a perda e a maldade.  Enfim, tudo o que caminha para o infortúnio eu tento me afastar. É uma dificuldade que trago no meu íntimo. E, confesso, me prejudica!

Logicamente, é possível começar a ler conhecendo o final; hábito, que acredito ser mais comum do que se possa imaginar. Sabendo que a história vai acabar bem, é um modo de garantir, durante a leitura, a tranquilidade de passar pelos conflitos e dores dos personagens, o que não deixa de permitir que o leitor aproveite melhor os fatos sem que sentimentos angustiantes dominem a leitura. Afinal de contas, a leitura tem de ser prazerosa, um dos conceitos básicos da formação do leitor.

Pode até mesmo favorecer que o leitor pule etapas da leitura para evitar aqueles trechos entediantes devido a descrições longas, abordagens de narrativas pouco relevantes. Também nos casos em que o leitor teve que parar de ler por um período e não sinta necessidade de retornar a páginas anteriores.

Quando fazia oficinas literárias de escrita criativa, fui orientada a planejar a história que eu iria criar. No planejamento era importante visualizar o final para saber como iria construir as etapas centrais do enredo. Aliás um dos requisitos principais da produção textual de ficção é a coerência dos fatos. Todo o enredo, do começo ao fim, precisa estar interligado com lógica, clareza e sentido. Nada pode ser incongruente, sem nexo. A não ser que os acontecimentos imprevistos na trama estejam propostos no planejamento. Pode até ocorrer que durante o processo de escrita surja uma situação nova, que vai exigir uma revisão do texto já escrito e do planejamento.

Um romance de ficção atraente ao leitor há de ter um fio condutor causado pela superação de uma situação conflituosa, que normalmente acontece no início da trama e muda a vida dos personagens. O suspense é fundamental para atrair a atenção do leitor, fazendo-o virar as páginas até chegar ao final. Se nada acontece, se a vida deles transcorre na total felicidade e tranquilidade, não há uma história interessante a contar. Os personagens são impedidos de mostrar suas características, seus defeitos e qualidades, suas ações heroicas, pacificadoras ou resilientes, maldosas ou pérfidas.

Se a literatura espelha a vida, e a vida não poupa ninguém, temos que lidar com as dificuldades, com as finalizações tristes ou trágicas.  Não buscar as últimas páginas antes de ler as primeiras é um amadurecimento da postura de enfrentamento das situações de vida.

A literatura salva!

  • Há sessenta anos, as meninas eram sonhadoras. Não havia celular, a televisão era em preto e branco e, ainda, existiam as novelas de rádio, quando as pessoas se reuniam para escutá-las. Era comum os adolescentes guardarem amores platônicos, e o beijo ser um sonho guardado com fitas de cetim.
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Tereza Cristina Malcher Campitelli

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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