Vínculos

Paula Farsoun

Com a palavra...

Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Há vínculos que o tempo não dissolve. Ainda bem. Eles não precisam de presença constante, nem de provas diárias. Bastam o reconhecimento silencioso e a leveza de ser aceito exatamente como se é. Assim nasce a amizade genuína — esse raro encontro entre almas que não disputam espaço, mas se acolhem no mesmo compasso.

A amizade genuína é um dos raros vínculos que resistem à lógica utilitarista do tempo. Em um mundo que transforma pessoas em meios e não em fins, ser amigo é reconhecer no outro um valor em si mesmo, não pelo que ele oferece, mas pelo que ele é. Trata-se de um encontro ético e existencial, no qual o ser é aceito em sua inteireza, sem a tentativa de moldá-lo ao nosso espelho. Bem, ao menos eu acho que seja assim.

Não há um formato ideal, nem tampouco único. Pelo contrário. É na pluralidade que os vínculos se tornam singulares, que as pessoas se tornam especiais umas para as outras. A pulverização de nossa atenção a cada dia é tamanha, que as vezes parece não sobrar tempo e energia para viver as conexões que interessam.

A amizade verdadeira é rara. Despretensiosa. Não pede performance, não exige máscaras. Ela floresce a partir de um sentimento de querer bem. De desejar o bem. De se sentir bem. Em um mundo saturado de aparências, ser amigo de verdade é quase um ato de resistência: é permanecer leal à essência, mesmo quando o cenário muda, mesmo quando o outro se desnuda em suas fraquezas.

E talvez o poder da amizade esteja justamente nisso: em ser o lugar onde a alma pode descansar sem medo. Onde não é preciso convencer, nem brilhar, nem se defender. Amigo de verdade é quase um símbolo de fé na permanência, um testemunho de que ainda é possível se encontrar sem se perder.

Certa vez me disseram que um bom medidor para a intimidade entre pessoas é se sentir bem ao lado em silêncio, sem necessariamente puxar assunto, sem precisar justificar porque sumiu, o motivo de não ter ligado. Eu concordo. Relações exigem cuidado. Mas ele pode ser nutrido de diversas formas. Há uma sabedoria tácita nesses laços, uma compreensão que dispensa explicações ou padrões.

O poder da amizade pode também resultar de pequenas presenças. No “como você está?” dito com verdade. No “cheguei” que acalma, no “eu sei” que dispensa justificativas. No “conte comigo” sem ser da boca para fora. Na torcida leal pela felicidade do outro. No abraço que sempre é lar. É nesse cotidiano sutil que a amizade revela sua força: ela sustenta, reergue, ilumina.

E, quando o mundo parece desabar, é a mão do amigo que nos lembra que ainda há chão. A amizade genuína é farol em noite escura, aquela que não muda a tempestade, mas ajuda a atravessá-la.

Com o tempo, aprendemos que a vida não se mede pelo número de pessoas ao redor, mas pela profundidade dos vínculos que construímos. Amigos verdadeiros são raros, mas bastam poucos para que a existência ganhe sentido. Porque a amizade, quando é de verdade, é abrigo. É espelho. É cura.

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Paula Farsoun

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Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

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