A música e a lei de causa e efeito

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 11 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Há pouco tempo acabamos de ler, no Clube de Leitura Vivências, o livro “Véspera”, de Carla Madeira, editado pela Record. É uma história desencadeada por um acontecimento trágico como consequência da história de vida de uma família. Escrito com maestria, a autora vai tecendo os fatos com minúcias, compondo cuidadosamente as causas de uma situação crítica e criminosa.

Acredito que a obra tenha sido uma história de ficção planejada, certamente inspirada em fatos, que, quando acontecem marcam a história dos bairros, cidades, famílias e de pessoas. Ao longo da leitura e dos debates que o texto provocava, comecei a pensar na lei universal de causa e efeito: toda ação (causa) gera uma reação (efeito) correspondente. Segundo seus princípios não existem acidentes, mas decisões pessoais e ações consequentes que interferem na vida e na sequência do destino.

A lei de causa e efeito é descrita em várias religiões, como o budismo e o espiritismo. Em filosofias, como na hermética, baseada nos ensinamentos de Hermes Trismegisto, que busca o conhecimento das forças cósmicas e mentais, e descreve que tudo o que acontece tem uma causa, tendo o acaso leis desconhecidas. É um pensamento que enfatiza a responsabilidade individual nos acontecimentos diários. Como também Aristóteles considerou, ao refletir sobre a existência das coisas, que o efeito é sempre dependente da causa.

O conceito budista a respeito do carma é relevante quando o descreve como consequência da tríade pensamento-palavra-ação. Na medida em que o pensamento é modificado, o carma também ganha outras dimensões. Não é algo que o sujeito esteja submetido ao longo da vida, mas que pode ser modificado a qualquer momento.

Nossa história é feita como uma corrente de elos em que um vai se unindo ao outro e, assim, cada um vai dando prosseguimento ao seu destino. Não nascemos prontos e muito menos vivemos num mundo finalizado. O tempo nos é transitório. Então, surge o poder criativo existente em nós, por mais que sejamos sujeitados. A criatividade resulta da coragem para mudar, propor novos modos de ser, estar e fazer. A lei de causa e efeito exerce uma forte influência sobre o sujeito. É uma força imperiosa, como a gravidade.  Ser criativo requer impedir que o medo e a ansiedade limitem nossas possibilidades, evitar que sentimentos derrotistas acompanhem os novos passos, fazendo crescer a autoconfiança antes mesmo da primeira conquista.

Rollo May (1909 – 1994), psicólogo americano, estudioso em psicologia existencial, considerou que a criatividade surge no encontro da experiência subjetiva do sujeito com a realidade externa em que algo original é idealizado e realizado. Diferente do escapismo, quando a interação entre o sujeito e a realidade é evitada, trazendo o conformismo à cena.

Criar pressupõe, em primeira instância, estabelecer novas relações de causa e efeito. “Véspera” mostra essa dualidade entre os personagens: o conformismo e o enfrentamento da vida, que acaba por desencadear os passos da tragédia, enredados por toda a sorte de sentimentos e comportamentos dos personagens. A obra nos motiva a refletir sobre situações que acontecem no dia a dia, como as expectativas dos pais que cercam dois ou mais filhos com características diferentes

Talvez se os personagens escutassem música que os acolhesse e os fizessem perceber a dureza da vida com criatividade, liberdade e amor, o enredo fosse outro. A rudeza da história indicou a falta de compreensão e como a maldade vai sendo construída em função de sofrimentos que poderiam ser evitados.

Como tantas coisas na vida. Enfim...

“Sem a música, a vida seria um erro.”  (Friedrich Nietzsche)

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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