A vida mais careta: o novo normal

Lucas Barros

Além das Montanhas

Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.

quinta-feira, 09 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Os recentes casos de intoxicação por metanol voltaram a colocar o álcool no centro de uma discussão antiga: o que leva o brasileiro a beber — e, mais recentemente, a deixar de beber. As mortes e cegueiras causadas por bebidas adulteradas chocam não apenas pela tragédia, mas pelo contraste com outro dado: metade dos brasileiros afirma ter reduzido o consumo de álcool no último ano. O país parece estar trocando o hábito pelo receio — e, de certa forma, se tornando mais cauteloso.

De um lado, cresce o número de pessoas que abandonaram o hábito por motivos de saúde, bem-estar e mudança de estilo de vida. De outro, o medo de produtos inseguros e a desconfiança sobre o que se consome também afastam muitos das garrafas e copos. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: o brasileiro está bebendo menos — por convicção ou por precaução. É um novo tipo de sobriedade, mais associada à prudência do que à moral.

Os episódios recentes envolvendo metanol escancararam um problema antigo. Bebidas falsificadas circulam com facilidade em mercados informais, sem controle sanitário ou tributário. O consumidor, muitas vezes, não desconfia: o rótulo é convincente, o preço é atraente e a procedência, duvidosa. O metanol, usado de forma criminosa para baratear a produção, é um veneno capaz de causar cegueira e morte em poucas doses.

 

Mudança cultural

Paralelamente a esses casos, há uma mudança cultural silenciosa. O levantamento do Datafolha mostra que 53% dos que bebem reduziram a ingestão de álcool e que 34% dos abstêmios evitam beber por preocupação com a saúde. É o reflexo de um comportamento mais consciente, que não depende de proibição, mas de informação. O país começa a olhar com mais seriedade para os efeitos do álcool — tanto no corpo quanto na rotina.

Essa mudança se reflete também na vida noturna. Em várias cidades, o movimento dos bares diminuiu, as festas perderam fôlego e o “rolê” deixou de ser semanal. Parte disso vem do bolso: o lazer ficou caro, e uma noite de bar pode custar o equivalente a um dia inteiro de trabalho. Mas há algo mais profundo — o encanto da madrugada perdeu espaço para a rotina do dia seguinte, com treino cedo, trabalho remoto e sono regulado.

 

Nova Friburgo mais pacata

Não apenas em Nova Friburgo, mas em todo o mundo, a transformação é visível. As ruas que há poucos anos ferviam nas noites de sexta e sábado, hoje mostram um movimento mais tímido. Alguns bares fecharam, outros se adaptaram a um público que prefere comer bem, conversar e voltar cedo pra casa.

Até em festas tradicionais, nota-se uma redução da duração desses eventos, que tem acabado mais cedo. A ressaca já não combina com a manhã seguinte de trilha, pedal ou feira de orgânicos.

Essa mudança pode soar careta, mas talvez seja apenas um novo tipo de maturidade coletiva. Há quem lamente a perda do espírito boêmio, mas há também quem veja nisso um sinal de evolução. A sobriedade, nesse contexto, não é sinônimo de tédio — é de consciência. O Brasil que um dia foi famoso pela caipirinha e pelo carnaval começa a se reconhecer em outras formas de prazer, mais simples e seguras.

Talvez os casos com metanol tenham apenas revelado algo que já vinha se desenhando: um afastamento progressivo do álcool, movido menos por tragédias e mais por uma nova percepção de cuidado. O brasileiro está aprendendo a recusar a bebida não apenas porque teme o que ela pode causar, mas porque já não sente que precisa dela.

E, se há algo positivo em meio a tantos alertas, é constatar que o copo do brasileiro anda mesmo mais vazio — e, dessa vez, isso pode ser um bom sinal.

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Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.

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