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Entre o livro da lei e a rasura

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
A democracia é como uma flor rara. Parece frágil, mas é justamente na sua aparente fragilidade que repousa sua força. Ela floresce não porque é protegida por grades ou muros, mas porque se alimenta do respeito cotidiano, da confiança mútua e da paciência em ouvir o outro, mesmo quando não gostamos do que ele diz.
Houve dias em que essa flor foi pisoteada. Não por acaso, mas por mãos que acreditavam ser possível arrancá-la e substituí-la por algo mais duro, mais áspero, menos plural. E, no entanto, a história já nos mostrou que jardins de pedra não acolhem pássaros, nem sonhos, nem o futuro.
Aqueles que invadem os espaços sagrados do debate e da justiça talvez não compreendam que não estão apenas quebrando vidros ou portas: estão tentando despedaçar o próprio espelho da sociedade. Pois nesses prédios — altos, solenes e muitas vezes distantes — não estão apenas paredes, mas símbolos de um pacto coletivo chamado democracia.
É verdade que esse pacto é imperfeito, cheio de ruídos, injustiças e demoras. Mas ainda assim, é nele que nos encontramos. A democracia é um diálogo interminável entre vozes desencontradas. É uma sinfonia em que o desafinado também tem lugar, mesmo que nos irrite, porque sem ele não há verdadeiramente música.
Não há democracia sem a aceitação do tempo. O tempo do voto, o tempo da espera, o tempo da alternância. Quem deseja atalhos rápidos esquece que a pressa é irmã da tirania. É fácil ceder ao canto sedutor da força, à ilusão de que basta um punho fechado para resolver os impasses. Mas nada floresce na sombra do medo.
Por isso, quando vemos muros sendo escalados e janelas quebradas, é como se víssemos alguém tentando rasgar as páginas de um livro no meio da leitura. A história não para porque alguém deseja pular capítulos. Ela insiste, persiste, e escreve por cima das rasuras. É o livro da lei que resiste, ainda que manchado, sempre reescrito pelo tempo.
A defesa da democracia não se faz apenas nos tribunais ou nos palácios. Faz-se no cotidiano. Faz-se quando aceitamos perder uma disputa, quando escolhemos a palavra em vez da pedra, quando acreditamos que a verdade não é monopólio de ninguém. Cada gesto de tolerância é um tijolo novo em sua construção.
É preciso lembrar que o ódio é um péssimo arquiteto. Ele constrói casas que logo desmoronam, porque são feitas de paredes ocas. Já a esperança, mesmo tímida, constrói moradas que atravessam gerações. A democracia é justamente essa esperança organizada, dando abrigo aos que ainda não nasceram.
Se a democracia for uma praça, que seja uma praça cheia de vozes, onde crianças correm e idosos descansam. Onde cabem protestos e celebrações, encontros e despedidas. Uma praça que só existe porque é de todos e, por isso mesmo, não pode ser tomada por uns poucos que acreditam ser donos do destino coletivo.
Talvez nunca aprendamos a conviver sem conflitos. Mas podemos aprender a transformar conflitos em conversa, e conversas em pontes. É assim que a democracia resiste: não no silêncio da unanimidade, mas no burburinho da diversidade. O verdadeiro perigo não está no barulho, mas no vazio de ideias barulhentas.
E como qualquer jardim, a democracia pede cuidado constante. Não basta plantar uma vez e esquecer. É preciso regar, podar excessos, retirar ervas daninhas. O descuido abre espaço para pragas que chegam sorrateiras, disfarçadas de soluções rápidas, mas que corroem lentamente a raiz do comum.
Há quem confunda liberdade com licença para destruir. Mas liberdade verdadeira é também responsabilidade: é saber que meu gesto não pode esmagar o direito do outro. Democracia é essa dança delicada, em que os passos se ajustam para que todos possam continuar no mesmo compasso.
E aqui é preciso dizer: perdoar atos que buscavam apagar a própria democracia não é generosidade, é cegueira. A anistia para quem tentou calar instituições não é reconciliação, é convite ao abismo e à tolerância com o intolerável. Porque não se trata de divergência política, mas de um ataque contra a própria possibilidade de termos política.
Quando alguém tenta derrubar suas colunas, a democracia não cai de imediato. Ela balança, cambaleia, mas resiste porque está fincada na memória de um povo. Cada geração que a defende adiciona mais uma pedra em seus alicerces, tornando-a mais difícil de ser demolida, ainda que sempre vulnerável.
E assim seguimos, cuidando da flor rara. Ela já resistiu a secas, tempestades e invernos rigorosos. Resistirá de novo, se não esquecermos que sua raiz está em nós. Não nos esqueçamos: a democracia não é um presente que recebemos. É uma tarefa que não termina nunca. Pois cada geração acrescenta uma nova página ao livro da lei, e não podemos permitir que seja rasurado por meio da violência.

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
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