A liberdade gera angústia

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 21 de maio de 2026
por Cesar Vasconcellos

Fomos criados por Deus com liberdade de escolha. Ser livre para escolher significa que podemos e precisamos decidir coisas diariamente e construir nosso caminho. É uma maravilha ter essa liberdade que está sendo ameaçada e será mais ainda num mundo caminhando a passos largos para a implantação do que usualmente chamam de “bem comum”. Só que esse “bem comum” envolve determinações ditatoriais, violando o direito constitucional de liberdade de escolha e religiosa.

A liberdade de escolha no campo psicológico envolve responsabilidade, risco e incerteza. A pessoa percebe que não pode culpar sempre os outros, a sociedade ou o destino pelas suas decisões. Essa consciência desperta angústia porque obriga o indivíduo a enfrentar a própria existência de maneira madura e consciente. A liberdade de escolha envolve o risco de escolher errado, e isso pode causar ansiedade em muitas pessoas.

Rollo May, psicólogo, teólogo, psicanalista e profundo pensador, afirmava que muitas pessoas desejam liberdade, mas ao mesmo tempo têm medo dela. Quando alguém percebe que pode mudar de vida, terminar relacionamentos destrutivos, abandonar vícios ou assumir novos rumos, também percebe que terá de lidar com as consequências dessas decisões. Assim, a angústia surge como um sinal de que a pessoa está diante de possibilidades reais de transformação. De certa forma essa angústia pode ser a expressão do medo do que se deseja.

Na visão existencial de Rollo May, a angústia não deve ser vista apenas como algo negativo ou patológico. Existe uma ansiedade “normal”, ligada ao crescimento humano. Ela aparece quando o indivíduo enfrenta desafios importantes, assume responsabilidades e busca viver de maneira autêntica. O problema acontece quando a pessoa tenta fugir dessa angústia por meio de comportamentos de fuga, como dependências, superficialidade, excesso de distrações ou submissão completa às expectativas alheias. Fugir continuamente da liberdade pode levar ao vazio interior e à perda do sentido da vida.

A ansiedade gerada pela liberdade de escolher pode ser administrada através de atitudes criativas e construtivas, mas também pode ser vivida de forma destrutiva, como através de compulsões para jogo, sexo, pornografia, drogas lícitas ou ilícitas, compulsão alimentar, fumo, compras, redes sociais, entre outras dependências.

Amadurecer é aprender a suportar a angústia da liberdade sem paralisar-se. A coragem, para Rollo May, não é ausência de medo, mas a capacidade de seguir adiante apesar da insegurança. A pessoa saudável emocionalmente reconhece seus limites, aceita que não possui controle absoluto sobre tudo e ainda assim escolhe viver de forma responsável e significativa. Dessa maneira, a angústia deixa de ser apenas sofrimento e pode tornar-se um caminho para autenticidade, crescimento pessoal e maior consciência da própria existência.

O ex-professor da UFRJ psiquiatra e psicanalista, dr. Eustáquio Portela dizia que o drogado se droga porque não pode ser Deus. Ou seja, não tolera a angústia da limitação, da impotência para tantas coisas, e possui limiar baixo para lidar com frustrações.

Lidar conscientemente com nossa angústia é um fator importante para nossa saúde mental, porque saúde mental não é a ausência de sentimentos dolorosos como ansiedade, medo, tristeza. Uma pessoa com boa saúde mental é a que quando experimenta tais sentimentos consegue lidar com eles sem fazer besteira, sem se drogar, sem fugir para comportamentos disfuncionais.

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Cesar Vasconcellos de Souza

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