Iatrogenia e a necessidade de humildade na prática médica

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

O termo iatrogenia vem do grego iatros (médico) e genes (produzido por), e significa “aquilo que é causado pelo médico”. Em medicina, iatrogenia refere-se a qualquer dano, doença ou complicação provocada direta ou indiretamente por uma intervenção médica, seja um tratamento, procedimento, diagnóstico, prescrição ou até mesmo uma atitude do profissional de saúde.

Como médicos podemos nos envolver em três tipos de erros: por negligência, por imperícia e por imprudência. Errar por negligência é quando não se faz o que deveria ser feito por desatenção ou falta de cuidado. Errar por imperícia ocorre quando o profissional não possui a qualificação, a destreza ou o domínio técnico adequados para realizar um procedimento, interpretar um exame ou conduzir um tratamento. E errar por imprudência é quando ele não toma os devidos cuidados para proteger o paciente, agindo sem cautela e com precipitação.

A iatrogenia pode ocorrer mesmo quando não há negligência ou intenção de causar mal, resultando de efeitos colaterais imprevistos de medicamentos, procedimentos invasivos, erros de diagnóstico, comunicação inadequada ou condutas desnecessárias. Assim, o ato médico destinado a curar pode causar sofrimento.

Do ponto de vista ético e humano, a iatrogenia convida à reflexão sobre os limites do saber médico, a necessidade de humildade profissional e a importância de uma relação médico-paciente baseada na escuta e no respeito mútuo. Reconhecer a possibilidade do erro é o primeiro passo para preveni-lo e para fortalecer uma medicina mais segura, empática e responsável.

A medicina, embora seja uma das mais nobres profissões, carrega consigo uma verdade incômoda: o erro médico existe e causa sofrimento real. A confiança depositada na medicina moderna é imensa. Avanços tecnológicos, diagnósticos sofisticados e tratamentos cada vez mais complexos fazem com que a sociedade espere da medicina resultados quase infalíveis. No entanto, por trás dessa aparente perfeição, existe o fator humano – o médico sujeito ao cansaço, ao excesso de autoconfiança e às falhas de comunicação. A iatrogenia, portanto, não é apenas um problema técnico; é também ético e humano.

Muitos erros médicos não ocorrem por negligência, mas por falta de escuta atenta ou pela pressa em aplicar protocolos padronizados sem considerar as características individuais de cada paciente. Interessante que Hipócrates, médico grego que viveu entre 460 e 377 antes de Cristo, chamado Pai da Medicina, disse: É mais importante saber que tipo de pessoa tem uma doença do que saber que tipo de doença uma pessoa tem.” A formação acadêmica, pode levar o profissional a acreditar que “sabe o suficiente” e, assim, reduzir sua sensibilidade e percepção da dúvida, percepção essa importante na boa prática médica.

A humildade, nesse contexto, surge como virtude indispensável. Reconhecer que o conhecimento médico é limitado e que o paciente é um ser complexo, com corpo, mente, espiritualidade e história, é o primeiro passo para reduzir danos e fortalecer a relação terapêutica. O médico humilde não teme dizer “não sei” ou pedir uma segunda opinião; ao contrário, entende que a segurança do paciente é mais importante do que a própria imagem de autoridade, do que seu ego.

Para promover uma medicina mais humana e menos iatrogênica é preciso valorizar o diálogo, a empatia e a atualização contínua, entendendo o erro não como motivo de vergonha, mas como oportunidade de aprendizado. Às vezes erros médicos podem acontecer porque o médico atende muitos pacientes no dia, sem oferecer uma consulta detalhada, seja pela ganância financeira do médico, ou porque ser colocado num atendimento com uma quantidade exagerada de pessoas a serem atendidas em poucas horas, numa clínica particular que explora o trabalho do médico ou numa instituição do governo com fila imensa de pacientes.

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Cesar Vasconcellos de Souza

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