Fazer as pazes com nossas limitações

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Em julho de 2017 a revista “Psychology Today” publicou um artigo escrito pelo doutor em psicologia Leon Seltzer, com o título: “Sim, você não pode! – Por que você deve afirmar suas limitações.” Nos acostumamos, talvez desde que Barack Obama era presidente dos Estados Unidos, a escutar a frase: “Yes, you can!”, “Sim, você pode!”. Mas não podemos? Vamos pensar nisso compartilhando ideias minhas e do dr. Seltzer.

Muitos livros de autoajuda tratam sobre como se auto-superar, transcender seus limites, vencer barreiras, e se alguém lhe diz que você precisa aceitar suas limitações, ou seja, se diz “você não pode” no sentido de não conseguir, isso pode causar um sentimento de pessimismo, não é mesmo? Mas podemos fazer as pazes com nossas limitações.

Não somos bons em tudo. Nascemos com algumas habilidades e aprendemos outras. Temos alguns talentos e não temos outros. Por mais que você se sinta uma pessoa forte, suas limitações inatas irão influenciar o que você pode e o que não pode fazer na vida.

A mídia exalta jogadores de futebol e os clubes pagam milhões de reais, dólares ou euros para estes que nasceram com habilidade motora nos pés que os fazem hábeis jogadores de futebol, embora muitos sejam maus exemplos de conduta moral. Se você não tem habilidade psicomotora para este esporte, você pode treinar muito, e nunca chegará na performance dos jogadores que nasceram com esta capacidade. É o seu limite natural.

Sim, você deve dar o seu melhor, fazer esforços, se aprimorar com cursos, superar expectativas profissionais e alcançar seus objetivos. O dr. Leon Seltzer afirma que “uma das razões pelas quais esses esforços geralmente valem a pena é que muitas vezes você só consegue reconhecer seus limites imutáveis depois de ter lutado fortemente para superá-los (e às vezes com ajuda externa também).” Damos de cara com nossas limitações após fazer o máximo que foi possível. E agora?

Cuidado para não se estressar, se desapontar repetidamente, conviver com sentimentos de fracasso e adoecer por insistir em algo que está além de suas limitações. Isto não é fracasso, mas limitação natural. Dependendo da situação, pode ser melhor simplesmente dizer a si mesmo: 1 - “Acho que finalmente sei o quanto esse negócio é cruel. Não fui feito para chegar aqui no topo. Não sou agressivo o suficiente, não estou motivado para fazer as conexões que preciso e não tenho vontade ou resistência para isso.”; 2 - ”Preciso enfrentar isso. Ela [ou ele] não está interessado em mim. Fiz tudo o que pude para atraí-lo (a). Não importa o quanto gosto dessa pessoa, tenho que enfrentar o fato de que ele/ela nunca vai retribuir meus sentimentos apaixonados.”; 3 - “Posso amar guitarra, pratiquei muito, e é hora de enfrentar o fato de que nunca serei bom o suficiente para ganhar a vida tocando numa banda. Posso fazer da guitarra uma parte da minha vida recreativa, mas simplesmente não consigo fazer disso minha profissão.”; 4 - “Sei que sou um ‘animal político’ por ficar absorvido no mundo da política. Gostaria de poder influenciar a direção que este país está tomando. Mas nunca vou conseguir bajular as pessoas, beijar bebês durante a campanha ou fazer tudo o que os políticos fazem para ser eleitos. Vou procurar algo pelo menos relacionado à política que me satisfaça.”

Saltzer levanta a pergunta: “Então, isso é sobre desistir de seus sonhos? É sacrificar seus ideais, resignando-se a uma vida de frustração, tédio ou mediocridade?” Ele mesmo responde: “Dificilmente. A vida pode ser cheia de compromissos, mas, para a maioria de nós, também está cheia de escolhas. É raro que apenas uma coisa na vida possa atrair sua atenção ou interesse. Embora seja difícil renunciar a um sonho que você teve talvez desde a infância, é pior apegar-se ferozmente a uma fantasia que a vida já demonstrou que simplesmente excede seu alcance mental, físico ou emocional.”

Nesses casos o que fazer? Primeiro lamente porque sua primeira escolha, seu Plano A, não vai se tornar sua realidade. Mas também não fique obcecado e ruminando sobre essa perda. Lamente por um pouco de tempo e siga em frente. Pergunte a si mesmo o que mais, relacionado à primeira escolha ou não, você gostaria de fazer? E, é claro, essa escolha deve estar dentro do seu nível verificado de competência. Uma parte importante para seu bem estar mental é encontrar um desafio adequado para você, o qual definitivamente está dentro de sua capacidade de realizá-lo. Fazendo as pazes com nossas limitações nós vamos para a frente na vida.

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