Depressão e justiça social

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 04 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Necessitamos de justiça. As famílias, a comunidade, o município, o estado e o país necessitam dela. Sem justiça não há ordem, respeito, igualdade, nem condições de vida digna. Sem ela a maldade impera disfarçada de democracia ou explícita numa ditadura. Sem justiça, a saúde mental da população é prejudicada pois tira a esperança da existência de uma sociedade equilibrada. A perda da esperança é um fator central no surgimento da depressão mental.

Dan Blazer, professor de psiquiatria da Universidade Duke, Carolina do Norte, EUA, diz que a sociedade caminha para a desesperança, fala do perigo de se medicalizar as emoções, e que a violência social aumenta sem perspectiva de melhora. Sem justiça vem a desesperança. Viver em desesperança gera, segundo Dean Ornish, cardiologista professor da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia, em São Francisco, o “cinismo social”. Rollo May, profundo pensador e ex-presidente da Associação de Psicologia de Nova Iorque, também descreveu este fenômeno. Cinismo social é o acostumar-se com desgraças da sociedade de modo que você passa a brincar com elas, faz piadas em cima da dor, faz charges engraçadas com as corrupções no mundo político e empresarial.

Justiça é perdão ao pensarmos nos escritos de Paulo aos Romanos, que dizem que ao você ser justificado pela fé, mediante a graça, é perdoado e surge a paz e a esperança. Ou seja, a corrupção do caráter tem jeito para quem quer a cura. Mas quem não a quer, ou quer, mas fica só no desejo e não dá passos concretos para obtê-la, já está julgado, permanece injusto, culpado. O corrupto que ousa dizer “Graças a Deus conseguimos esta propina!”, está pior do que o que dá graças ao diabo, originador de toda corrupção, por uma fraude contra a população.

A maldade destrói a própria pessoa que a comete. O bem, a justiça verdadeira, destrói a maldade dos maus. “A malícia matará o ímpio.” Salmo 34:21. Mas os corruptos talvez não entendem isto, e vivem com cinismo disfarçado tantas vezes e frequentemente de frases pré-fabricadas visando o aplauso popular e a manutenção do poder. Não faz nenhum sentido permanecerem com o poder. Mas permanecem e, pior, são reeleitos. O que isto diz de nós, povo?

Sem mudança de caráter do indivíduo, nada muda no social que seja duradouro, de valor ético, sem conflito de interesses, com benefício para as classes menos favorecidas. Pense: a corrupção diminuiu? A sociedade está mais tranquila porque a violência também diminuiu?

“Quando me interrogo por que sempre me empenhei por ser honesto e compreensivo para com os outros, e se possível sempre bondoso, e por que não desisti mesmo quando percebi que com isso a gente se prejudica, a gente passa a ser bigorna porque os outros são cruéis e não merecem confiança, na verdade não sei a resposta.” Neurologista James Putnam, da Universidade de Harvard, citado por Hans Küng em “Freud e a questão da religião”, p.100, Verus Editora, 2005.

Uma coisa é certa: os que têm assumido papéis de poder na sociedade terão que prestar contas um dia de seus atos. A impunidade não existirá para sempre. “Ele [o Criador do Universo] mesmo julgará o mundo com justiça; julgará os povos com retidão.” Salmo 9:8. Por isso, não perca a esperança. Não coloque a esperança em soluções humanas. Se não você pode ficar deprimido.

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Dr. Cesar Vasconcellos de Souza

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