Abertura do coração emocional

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 26 de março de 2026
por Cesar Vasconcellos

Nos tornamos como pessoa aquilo que nos causa menos dor. A formação da estrutura da personalidade humana é construída ao longo da infância na interação da criança com seus pais ou cuidadores. Se essa interação é recheada de respeito, valorização, manifestação de carinho sem superproteção, disciplina sem agressividade e sem violência, se pai e mãe interagem com a criança com afeto, revelando como ela é importante na vida deles, a estrutura da personalidade dessa criança, nesse tipo de ambiente familiar, será bastante saudável.

Por outro lado, se na infância da criança ela é criada sem pai, ou sem mãe, ou se o pai e a mãe, embora presentes fisicamente, são ausentes ou indisponíveis emocionalmente, se desrespeitam o filho ou filha com palavras agressivas, depreciadoras, se pai e mãe frequentemente perdem o autocontrole emocional e manifestam nervosismo no ambiente familiar, essa criança crescerá com “machucados” em sua personalidade.

Essas feridas emocionais serão mais graves ou menos dependendo da resistência natural que a criança tem ou não tem para lidar com problemas emocionais. Isso porque algumas crianças nascem com melhores defesas contra dificuldades de relacionamento na família. Algumas são mais resilientes desde o nascimento, nascem com melhores recursos mentais para lidar com a dor emocional.

Comecei esse artigo dizendo que nos tornamos como pessoa aquilo que nos causa menos dor. Ou seja, adaptamos nosso jeito de ser, mais fechado ou mais aberto, mais comunicativo ou menos, mais afetivo ou mais frio, mais espontâneo ou mais reprimido, com melhor autocontrole ou mais impulsivo, mais dependente ou menos apegado, na dependência do ambiente familiar como descrevi, mas também em função do temperamento básico individual. O jeito como a criança vai se tornando como personalidade tem muito que ver com as tentativas dela, mais inconscientes do que conscientes, de sobreviver mentalmente como indivíduo.

Pense por um momento sobre o significado de uma crise esquizofrênica. Esquizofrenia tem que ver com cisão, rompimento entre a realidade e a pessoa. Essa dor mental separa a pessoa dela mesma e das conexões saudáveis com os outros, criando um estado que chamamos de “psicótico” nela, alterado gravemente. A esquizofrenia é, portanto, uma quebra da personalidade, uma ferida mental grave que rompeu a unidade do indivíduo com ele mesmo, alterando sua personalidade. As defesas mentais do esquizofrênico não foram suficientemente fortes para lidar com aquilo que para ele, em sua sensibilidade, foram situações de estresse emocional, interno e externo, daí ele sucumbiu.

Repetindo, algumas crianças nascem com melhores defesas mentais contra situações difíceis na família e dentro delas sobre como as fontes de estresse chegam para ela. Importante compreender que a sensibilidade daquela criança específica parece ser a chave para se entender a razão pela qual ela sucumbe diante de estresses no convívio familiar. Isso porque outra criança, um irmão biológico ou irmã biológica da que teve sofrimento mental importante, não sofre mentalmente da mesma maneira, com as mesmas consequências, sintomas e surgimento de um transtorno mental importante. Ela tem melhor defesa talvez inata.

Uma criança sensível que vive num ambiente em que o pai ou a mãe, ou ambos, são abusivos verbalmente e até fisicamente, um ou outro cuidador dela é descontrolado emocionalmente, a sensibilidade dela, que é ótima para muita coisa na vida, nesse caso a faz se fechar para se proteger da dor dos abusos. Ela separa uma parte do ser (personalidade), aprende a se afastar para dentro de si, para tentar estar conectada no ambiente difícil. Ela aprende a usar mais a repressão dos seus sentimentos para se proteger, do que a expressão equilibrada deles. Depois pode ficar difícil abrir o coração. E vai precisar aprender a se abrir e se sentir segura em fazer isso. Essa não é uma tarefa fácil e rápida.

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Cesar Vasconcellos de Souza

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