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Deu branco

Paula Farsoun
Com a palavra...
Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.
Deu branco. Já aconteceu com você? Estava em meio a uma frase e esqueceu o que ia dizer. Estudou para a prova, estava com a matéria afiada e na hora de responder a questão, você sabia que conhecia a resposta mas não faz a menor ideia de qual seja. Agendou um compromisso importante e simplesmente esqueceu completamente da existência dele. Sabe quem é uma pessoa, mas ao encontrá-la na rua, faz um malabarismo para não transparecer que se esqueceu do nome dela. E por aí vai.
Para além de alguma patologia que possa estar atrelada a esse sintoma, o que não me compete aqui abordar, essa sensação repentina de vazio mental é angustiante. Presenciei o episódio recentemente com uma colega de profissão aparentemente super competente, diante de uma sustentação oral em um tribunal judicial. Foi assim. Ela estava confiante, iniciou sua fala com toda propriedade e no meio de seu dizer ela simplesmente travou, não saía mais nada. Senti angústia por ela. E nem a conheço. Veio à minha mente que ela deveria estar nervosa, que poderia ser uma pessoa ansiosa ou mesmo que ela estaria diante de um episódio de pânico. Mas nada disso eu tenho expertise ou propriedade técnica para afirmar. Só sei que “deu branco” ali, e foi esquisito.
Então, lembrei-me de um outro episódio. Certa vez, meu marido e eu estávamos em um voo para São Paulo. Ao nosso lado, sentou-se um rapaz que nos perguntou qual era mesmo o destino. Rimos e respondemos. Mas eu fiquei refletindo , por uns dois minutos, se ele havia se esquecido para onde estava indo ou se queria se certificar de que ele estava no avião certo. Acontece. A correria às vezes nos confunde. E então, com o avião ainda sendo ocupado pelos passageiros, ele chamou a comissária de bordo e fez a mesma pergunta para ela e então eu entendi.
Ele não sabia se estava indo para o aeroporto certo em São Paulo: Congonhas, Guarulhos ou até Viracopos. Seu bilhete era virtual e seu smartphone descarregou tão logo entrou na aeronave, e ele não podia abrir para conferir. A funcionária esclareceu. Ufa. Estava tudo certo. Mas eu percebi a agonia ao lado. Ele simplesmente estava com a cabeça cheia ao ponto de não fazer ideia se comprou a passagem para o destino que ele pretendia.
Nossas mentes andam hiper lotadas, hiper conectadas, hiper demandadas. Ao longo de um dia, talvez tenhamos acesso a mais informações, imagens, telas, sons, que nossos ancestrais tenham alcançado ao longo de décadas de existência. Tenho para mim que esse “branco” que a gente tem, possa não ser falta de algo, e sim excesso.
Talvez esse momento em que sentimos que “deu branco” e por vezes nos assusta, seja apenas o grito silencioso da mente pedindo para respirar — um pedido de pausa em meio ao excesso de demandas, informações e expectativas que despejamos sobre nós diariamente. Não acho que seja falta de capacidade, pode ser um transbordamento. A bacia de água está cheia e quando a gente puxa, a água escapa pelo outro lado.
Quando o pensamento emperra, talvez seja um convite à pausa, ao autoconhecimento. Convite para reorganizar, silenciar o barulho interno, abrir espaço para o essencial. Porque lembrar também exige esvaziar. E, quem diria, às vezes o branco é justamente o ponto de partida para começar de novo — mais leve, mais consciente e com a mente, enfim, habitável.

Paula Farsoun
Com a palavra...
Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.
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