Que em 2026 possamos estar vivos e juntos!

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

É comum desejar felicidades e conquistas, saúde e alegrias para o ano que vai chegar; votos que sempre fiz e recebi durante anos. Porém uma amiga me enviou, neste final de ano, via WhatsApp, uma antiga prece portuguesa, de autoria desconhecida, que enseja que mantenhamos no ano que está por vir as conquistas que fizemos durante a vida. O conteúdo da oração me impactou e me fez refletir a respeito e concluir que mantê-las poderia ser até mais difícil do que os esforços que empreendemos para tê-las. Muitas vezes, quando usufruímos dos benefícios que elas nos oferecem todos os dias, esquecemos dos processos de conquista pelos quais passamos.

Eis a prece:

“E o que você quer que o próximo ano te traga?

Nada, não quero que me traga nada.

A única coisa que quero é que não leve.

Que não leve o teto que me protege, o prato que me alimenta, a manta que me aquece, a luz que me ilumina, o sorriso dos meus amados, a saúde como um tesouro, o trabalho como sustento, a amizade, a companhia, os abraços e os beijos.

Que não leve os sonhos, nem os pedaços dos corações formados por pessoas que carrego dentro de mim. Amém!”

Acredito que muitos dos leitores a tenham recebido. Mesmo assim, não gostaria de deixá-la passar aos nossos olhos sem observar que a maioria dos nossos anseios para o futuro estão no novo. Nem pensamos no que já temos. E é aí que mora o nosso erro derradeiro de fim de ano: nossos desejos se esquecem de molhar as plantas dos nossos canteiros.

Noutro dia, conversando com minha filha no café da manhã, consideramos que o passado e o futuro não existem na realidade concreta. O que há é o aqui e o agora. É em cada instante presente que nossos olhos alcançam, nossas mãos pegam, nossos desejos se atualizam. Então, nos sentimos aterrissados no que possuímos. Para falar a verdade, possuímos muito. Todo esse muito requer atenções, cuidados e providências, posto que é nesse aterrissar contínuo que desvelamos nossos afetos, propósitos e propostas. Construímos nossas vidas.

Quando escrevi minha dissertação de mestrado em Educação, em 1980, concluí que algumas propostas dos Pioneiros da Educação, em 1922, ainda não tinham sido atingidas. Terminei a dissertação, com certa tristeza e desapontamento.

A esperança continuará a ser nossa estrela-guia em 2026. Sinto vontade de escrever na primeira página da minha agenda que pretendo estar viva no final de ano. Caramba! É uma proposta caudalosa e audaciosa. A lista de tarefas que terei de fazer para atingir tal propósito é imensa. Pensando bem, desejar felicidade é vago porque ser feliz é decorrente dos esforços para realizar ações importantes. É trabalho! É usar a inteligência humana! É experimentar o amar!

As palavras de Albert Camus (1913-1960), escritor e filósofo franco-argelino, me inspiram. Segundo ele, o acordar da esperança não é como um discreto bater de asas. Pelo contrário. A esperança é despertada, vivificada, alimentada por milhões de indivíduos solitários, cujos atos e trabalho, diariamente, negam fronteiras e as implicações mais cruas da história. Como resultado brilha, num breve momento, a verdade de que cada e todo homem, sobre a base dos próprios sentimentos e alegrias, constrói para todos.

Quem em 2026 possamos estar vivos e juntos!

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Tereza Cristina Malcher Campitelli

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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