Poderá a alma de um livro ser artificial?

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Quando me fiz esta pergunta, algo dentro de mim, possivelmente vindo de algum canto da minha alma, começou a reagir negativamente. Não! Como posso falar sobre uma instância abstrata, que não vemos, não tocamos ou ouvimos, mas sentimos sua existência e força, que subsiste ao tempo, às mudanças e à morte. Está na alma o princípio da individualidade, o registro histórico da experiência existencial, quer seja nesta vida ou em outras. É possível que seja o princípio mais abrangente do universo e que exista nas diferentes formas de existências; em todos os seres.

O livro é um objeto elaborado pela alma humana, capta-a em cada palavra!

O célebre verso de Fernando Pessoa no poema “Mar Português (tudo vale a pena se a alma não é pequena...), ao se referir à grandeza dos esforços de um navegador para atravessar o Cabo Bojador que, para tal, precisa superar diversos níveis de dificuldade e desafio, nos mostra que esta força invisível é também capaz de sustentar atos impossíveis.

Para falar da alma é necessário se destacar a liberdade, ou melhor, o livre arbítrio para tomar decisões autênticas e realizar vontades pessoais em todos as etapas dos processos de realização, experimentando com plenitude um turbilhão de emoções decorrentes. A alma tem inteireza e não se reparte em frações como um quebra-cabeça.

O autor, diante de um projeto literário, sempre desafiador, vê-se, inicialmente à frente de uma página em branco, sedenta de texto, em que a ausência de ideias e palavras é um desafio tão assustador quanto é para o navegador atravessar o Cabo Bojador.

Mas, de repente, do espanto, da admiração e da estranheza aos fatos da vida, as palavras vão surgindo, riscando a brancura do papel, desenhando frases, compondo um texto, seja em que estilo literário for. É um momento que tem um pouco de magia, que expõe emoções e percepções do autor, que possui o cansaço infinito do trabalho. Ah, é muito trabalho! É um tempo a perder de vista em que ele escreve, lê, corrige, reescreve, e vai, de solavanco em solavanco, compondo sua obra literária. É aí que a alma literária do livro é gestada com significação.

Amigo leitor, é verdade que se eu for num site de Inteligência Artificial, escrever uma ideia e pedir para que me apresente um texto, terei, numa fração de minutos, um texto pronto feito por um robô. Um texto que pode ser até perfeito. Mas sem alma!

A alma do autor alimenta a alma do leitor, que por sua vez alimenta a do autor. É uma retroalimentação. Obras compostas por inteligências humanas sobrevivem ao tempo como os clássicos: “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, publicado em 1862; as peças de Shakespeare, lançadas no final do século XVI e início do século XVII e o romance “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes lançado no início do século XVII. Foram obras criadas para serem lidas por pessoas humanas. São livros que possuem almas imortais. O mesmo podemos dizer sobre a obra de Lewis Carol, “Alice no País das Maravilhas” publicada em 1865.

Noutro dia li que um cientista da robótica estava preocupado com um robô doméstico que ele havia criado. O tal robô era capaz de dar um soco na cabeça de alguém com tamanha força que poderia matar. Ainda estamos engatinhando nesses processos de criação artificial. Que conteúdo um robô literário pode apresentar às crianças? Hoje, em 2026, os robôs são planejados, administrados e comandados por humanos. Mas amanhã... Que preocupações éticas os humanos terão ao demandar temas aos robôs para serem lidos por crianças e adolescentes?

É, meu amigo, 2026 vai nos obrigar a pensar sobre o fazer literário e suas consequências futuras.

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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