Passa adiante!

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 03 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Certa vez, faz alguns anos, um amigo veio à minha casa e antes mesmo de me cumprimentar me ofereceu um livro e disse: quando acabar de ler, passa adiante. Assim o fiz e dei a uma amiga, que passou a outra amiga. Eu me senti bem em fazer parte daquela corrente de leitura, que possibilitou ao livro uma vida ativa por não ter ficado estanque na casa do meu amigo.

O livro, ao entrar numa corrente de leitura, estará sempre vivo! Fechado, num canto de uma mesa ou esquecido numa estante, ficará adormecido com as palavras e ideias entaladas, com indigestão.

Quando ando por algum lugar na cidade, se num shopping, numa praça ou mesmo numa cafeteria e vejo uma banca de livros lidos em oferta para novos leitores, me sinto animada. São ideias correndo mundo afora, que não ficam limitadas a alguém. O livro é um objeto que sempre tem algo a dizer e a cutucar.

O livro é antigo, pode ter mais de seis mil anos quando surgiram os primeiros protótipos em tabuletas de argilas na Suméria, na Mesopotâmia, região situada entre os rios Tigre e Eufrates. E, depois, em papiro no Egito.  Foi no século XV, durante a Revolução Industrial, que Gutenberg inventou a imprensa, possibilitando que todos tivessem acesso ao livro. Acredito que o registro de ideias, informações e histórias, feito através da linguagem escrita, tenha surgido pela necessidade de o homem expressar, difundir e guardar suas ideias, que possuem tal energia que precisam sair da instância mental e ganhar vida mundo afora. Hoje, virtual e materialmente, o livro expõe de diversos modos, as percepções, emoções e as preocupações do homem com a vida. Os livros, em diferentes estilos, os periódicos e os textos informativos são os mais amplos meios de troca de informações.

Gostaria de citar o I Ching, o Livro das Mutações, um dos livros mais antigos da humanidade, como exemplo. É um texto extraordinário e de hábil inteligência a respeito das tendências do movimento da vida e as consequências decorrentes. Foi uma obra que sobreviveu ao tempo e a todas as mutações, desde o seu surgimento, na China, em período anterior à dinastia Chou (1.150 a 249 a.C), permanecendo vivo nas culturas orientais e ocidentais por mais de 3.000 anos, cuja sabedoria influenciou o desenvolvimento da civilização chinesa e de outras, através de um texto denso de ideias e conteúdos simbólicos.

Passar um livro adiante significa compartilhar uma leitura que nos foi interessante. Noutro dia peguei um livro na porta de uma peixaria. Vejam isso! Até a porta de um lugar, onde peixes são vendidos pode ter essa função. Observei que nos cantos das páginas havia anotações de um antigo leitor. Constatei que essas anotações enriqueciam a leitura e me estimulavam a pesquisar. De repente, senti uma vontade imensa de conversar com ele porque notei que tínhamos certa afinidade. Que idade teria? Seria da mesma cidade que a minha? Qual a sua formação?

Na semana passada, recebi de uma grande amiga e escritora, para ler e passar adiante, o livro “A Vegetariana”, da autora coreana Han Kang, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2024. Ao repassá-lo vou escrever um bilhete com algumas anotações sobre o conteúdo da obra, dizer quem sou e assim por diante.

Uma vez alguém me disse que a literatura une as pessoas. Passar adiante um livro é uma gentileza e possui a intenção de fazer uma outra pessoa feliz, proporcionar-lhe momentos de lazer e melhorar os modos com que percebe e vive a vida. Geralmente quando alguém escolhe um livro e o coloca nos braços sente uma satisfação especial. Eu, particularmente, costumo abri-lo e cheirá-lo. Esse primeiro movimento expressa um especial sentimento, posto que o cheiro faz conexões com as emoções, evocando lembranças vívidas. Minha mãe era bibliotecária e minha avó, tradutora. Então, emocionalmente, a leitura me resgata e alimenta.

O livro é do mundo, sim! Pode ser lido por todos, em qualquer época e lugar. Será a obra de Shakespeare limitada a um grupo social? Ou o livro “A Bolsa Amarela” de Lygia Bojunga só pode ser lido por adolescentes?

 Enfim, criar ou participar de uma cadeia de leitores é fazer parte de uma biblioteca ambulante e dinâmica. Além de disseminar os benefícios da leitura, estimula o contato do leitor com a língua empregada de forma correta. E ultimamente, cá para nós, amigo leitor, o Português tem sido mal utilizado pelos brasileiros.

Que venha 2026 com boas leituras!

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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