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Os caminhos do afeto entre gerações

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
Certa vez, numa cerimônia religiosa, escutei que vivemos para aprender a amar. Saber amar é um dos aprendizados mais complexos que existem e um desafio que experimentamos em cada momento do nosso dia a dia. Nas conversas do nosso grupo no Clube Vivências, durante a leitura do livro de Lázaro Ramos, “Na nossa pele”, editado pela Objetiva, em 2025, foi ressaltado que as relações afetivas em que os pais ou aqueles que ocupam estes lugares estabelecem com os filhos influenciam os modos como estes irão se relacionar com os seus próprios filhos. O afeto é um fio condutor que liga uma geração a outra.
Aqui não quero falar de modelos que delineiam comportamentos. Mas do sentimento natural que brota nos pais, no sentido de expressar aos filhos o sentimento de amar, a emoção que faz uma pessoa desejar e fazer o bem a outra. No amor, o afeto se direciona ao outro através de gestos e atitudes que acolhem, nos modos de estar presente para compartilhar, cuidar e educar. Na capacidade de percebê-lo em suas qualidades e limitações, bem como em estabelecer relações verdadeiras e de confiança.
Amar é um conceito refletido pela civilização humana desde os seus primórdios. Até hoje tem sido estudado, debatido e conceituado. É como um raio de sol que atinge alguém quando parte da luz é absorvida e outra é refletida. Ou seja, uma parte do amor energiza a pessoa, enquanto a outra é por ela usada para energizar outra. Simples assim.
O amor é um sentimento intenso que transforma os pais e os filhos simultaneamente. Os homens e as mulheres que se tornam pais e mães têm suas identidades modificadas a cada experiência. São grandes influenciadores dos filhos e atuam diretamente na construção de suas identidades. Que seja através do olhar e abraçar, do conversar e brincar, dos modos de ser e viver, eles vão interagindo afetivamente, criando registros vivos na memória de cada um. Vão se influenciar mutuamente nos modos de ser, pensar e de estar na vida. O homem e a mulher não serão os mesmos depois que se tornarem pais.
O amor é o elo que une as gerações através de relações afetivas, contínuas e dinâmicas, em que histórias de vida são contadas, as culturas familiar, comunitária e social são transmitidas e internalizadas, os hábitos e modos de viver são apreendidos. Um dos meios que faz com que a coesão histórica e social se estabeleça ao longo do tempo é através das relações de amor entre pais e filhos.
Não há regras para os pais experimentarem laços de amor com seus filhos. Cada um é cada um. Contudo é um desafio vivenciá-los posto ser delicado compartilhar a intimidade. Sim. Acredito que seja difícil lidar com a diferença; pais e filhos são diferentes entre si em vários aspectos, como nos hábitos, vontades e nos projetos de vida, principalmente quando a idade dos pais avança e os filhos chegam na adolescência ou adultez. É um amor que exige diversas formas de resiliência, dedicação e doação.
E os filhos, por sua vez, não retribuirão aos pais exatamente o que receberam, mas darão aos seus filhos; vão amá-los não do mesmo jeito, mas com a mesma profundidade. É uma doação contínua, que vai passando de geração a geração. É um processo em que os modos de amar possuem possibilidades de amadurecimento por mais que os caminhos percorridos se mostrem tortuosos. A grande beleza dessa relação é quando o amor ilumina, respeita a liberdade de ser, dá limites saudáveis e aponta para conquistas que engrandeçam a humanidade existente em cada um.
Quantos pais passam a vida aprendendo a amar seus filhos?
Quantos filhos não entendem o amor que recebem dos pais?
Acredito que os pais morrem em paz quando experimentaram a certeza de terem amado seus filhos durante a vida.
Enfim, não são condições financeiras que promovem e reforçam os elos afetivos entre gerações. É a certeza de que os filhos têm do amor que seus pais sentem por eles.

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
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