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O conto de fadas

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
Será possível afirmar que contos de fadas guardam as grandes sabedorias da humanidade? Ou melhor, que podem ser considerados como verdadeiras aulas de evolução humana?
Surgiram há muitos anos na tradição oral quando as histórias eram passadas de boca a boca. Talvez tenham surgido na idade do Bronze, como o “Ferreiro e o diabo”. São histórias que passaram pelas culturas de diferentes tempos e lugares, geralmente contadas em rodas de conversa nas ruas, praças, calçadas ou em torno de fogueiras, às vezes em troca de alguma refeição ou abrigo durante a noite. Tal como Homero recitava as histórias da “Odisseia” (*) em decassílabos para não se esquecer.
É fascinante como elas sobreviveram ao tempo. A tradição de contos de fadas também se eternizou, e um bom exemplo é “O Leão e a garça”. Marina Colasanti foi uma exímia criadora na atualidade de contos de fadas, que estão reunidos no livro “Mais de 100 histórias maravilhosas”, o que denota que esse estilo literário continua vívido em livrarias, estantes de livros nos corredores das casas, nas bibliotecas escolares ou de bairro. Eu, inclusive, guardo o livro da Marina, com carinho, na minha estante.
O conto de fadas é uma narrativa fantástica com começo, meio e fim, e não está situado em tempo ou lugar como aqueles que se utilizam das expressões “Naquele tempo” ou “Num lugar distante”. Seus personagens são idealizados com ou sem poderes mágicos, podem ser príncipes e princesas, madrastas e bruxas, animais e seres fantásticos, como os duendes ou dragões, que vivem em reinos encantados.
A trama das histórias, de um modo geral, gira em torno de desafios que precisam ser superados, exigindo desempenhos inimagináveis dos personagens, como em “A gata borralheira” e, geralmente, possuem um final feliz. Os protagonistas são heróis que, ao driblarem dificuldades, representam os protótipos que contêm as bases dos valores universais, constituem a essência do inconsciente coletivo e apresentam lições de vida relevantes.
São personagens capazes de se interiorizar em nós, até porque seus nomes não possuem sobrenomes, como a Branca de Neve. São entidades que vivem no imaginário. De certa forma, a expressão “era uma vez” representa um portal à imaginação. Ou seja, uma porta que é aberta para uma realidade fantástica; a realidade concreta deixa de existir depois da passagem por esse portal.
O ouvinte, o leitor ou o espectador, diante dos contos de fadas, encontra referenciais úteis à praticidade da vida devido à quantidade que arquétipos contundentes e poderosos contidos nas histórias, como os existentes em Pinóquio, um clássico italiano da Literatura Infantil, que se depara com situações éticas para se tornar um menino de verdade. Os contos de fadas podem causar reflexões significativaS às relações humanas, sociais e culturais. À maneira como as pessoas reagem aos fatos da vida.
A criança, ao ler um conto de fadas, aprende a postura que poderá ter na vida através do prazer. Na verdade, esse é o grande trunfo da literatura para crianças e jovens. Sem ter finalidades pedagógicas, as histórias são fontes de ensinamentos, posto que as regras são apresentadas de modo lúdico, como por meio do heroísmo de Peter Pan e da resiliência criativa de Sherazade. Ainda há a possibilidade da criança e do jovem conversarem com outros da mesma idade e com adultos, sejam familiares, amigos e professores.
Todo o leitor, independentemente da idade, sexo ou nacionalidade, tem necessidade de falar de si, da sua visão particular de mundo. Falando de uma história, fala também de si. Escuta outro leitor, conversa a respeito, debate temas. Interage culturalmente.
Os contos de fadas possuem uma abordagem interdisciplinar; podem ser pensados à luz da filosofia, da psicologia, da história, ou da sociologia. Até da física e da matemática quando as histórias envolvem números ou efeitos relacionados à física, como as viagens de Gulliver.
Enfim, a criança e o jovem que aproveitam a literatura sentem, no seu quotidiano, o livro pulsar como um coração, principalmente se estão em processo intenso de descobertas e transformações.
(*) – A “Odisseia” de Homero não é um conto de fadas, mas é descrita em estilo narrativo de contos de fada. É um poema épico, considerado um dos pilares da literatura universal.

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
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