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Marchinhas de carnaval e literatura, uma mistura criativa

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
No carnaval, a literatura sai do papel e ganha várias expressões no movimento das ruas, que contam histórias de diferentes maneiras, seja nas fantasias, nas máscaras, nas marchinhas, através da cantoria dos blocos, nos desfiles das escolas de samba. Muitos brasileiros que guardam poesia na alma gostam do carnaval.
Para os escritores modernistas brasileiros, as marchinhas têm a voz do Brasil. Mário de Andrade as considerava como uma forma de literatura oral. Já Oswald de Andrade as considerava como uma poesia curta, irônica e direta. Sob o disfarce da folia carnavalesca, seus compositores se utilizam do duplo sentido para criticar a vida social. Através de uma linguagem livre e popular, são consideradas crônicas musicais de cunho social e político. Como estão situadas em determinadas lugares e épocas, são consideradas um registro histórico relevante ao guardarem a memória social e política do país. Há quem as considere como uma revista da vida nacional.
As marchinhas surgiram no Rio de Janeiro, no final do século XIX e receberam influências das marchas portuguesas. A primeira foi composta por Chiquinha Gonzaga, em 1899, para o cordão carnavalesco Rosa de Ouro, aquela que todos já cantaram e dançaram: “Ó abre alas”. Foi somente no século XX, entre os anos de 1920 e 1960, que atingiram o auge da popularidade, a época de ouro do carnaval brasileiro. O nome marchinha foi inspirado na marcha dos soldados, dado que a batida é similar à fanfarra militar, comum aos desfiles cívicos.
Com o sucesso, vários compositores criaram letras e músicas, como a “As pastorinhas” de Braguinha e Noel Rosa, gravada no final de 1937, “Mamãe eu quero”, composta por Vicente Paiva e Jararaca, em 1937, “Allah-lá-ô”, de Haroldo Lobo e Nássara, lançada em 1941. Dentre tantas outras, as marchinhas possuem ritmo acelerado e contagiante, letras simples, curtas e fáceis de gravar. Além de serem bem-humoradas, possuem uma temática variada, como o amor, situações cotidianas, ironias, vida doméstica, serviços urbanos, costumes e fatos da atualidade. São consideradas expressões literárias, especialmente no gênero literatura popular, oral e lírica.
Quem se esquece das letras e do ritmo das marchinhas de carnaval? Elas passam pelos anos e ficam na memória de todos, especialmente dos que um dia já foram foliões. Mesmo compartilhando espaço com os sambas-enredo, nunca pararam de ser compostas e animar os blocos de rua.
Deixo, então, com vocês, a letra da “Ô abre alas”, que expressa a abertura do espaço para a alegria, a liberdade e a celebração coletiva do carnaval.
Ó, abre alas, que eu quero passar
Eu sou da Lira, não posso negar
Eu sou da Lira, não posso negar
Ó, abre alas, que eu quero passar
Rosa de Ouro é que vai ganhar
Rosa de Ouro é que vai ganhar
(...)

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
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