Homenagem aos cachorros de rua

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Tomada pelo amor aos animais e pela tristeza, devido ao episódio recente de violência contra o Cão Orelha, que comoveu o Brasil, vou escrever esta coluna em homenagem aos cachorros de rua. No nosso país, segundo a Organização Mundial de Saúde, existem 20 milhões de cachorros que sobrevivem nas ruas. A ideia de sobreviver é mais adequada pelas circunstâncias em que eles vivem dado à precariedade com que passam os dias. Cada um deles tem uma história de abandono. Soltos nas ruas dos bairros das cidades e nas estradas, estão sujeitos à própria sorte. Passam fome, sede, sofrem violências, além de estarem vulneráveis aos acidentes, como atropelamentos. Eles têm a integridade física e a emocional ameaçadas diariamente.

Os cães de rua merecem o nosso respeito, afeto e atenção. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, sancionou o Projeto de Lei 419/2023, de autoria do Legislativo, que reconhece o “Vira-Lata Caramelo” como uma expressão de relevante interesse cultural do Estado de São Paulo. Todas as cidades deveriam ter tal reconhecimento, o que faria com que os cães tivessem maior acolhimento dos habitantes, das instituições públicas e das empresas. Além do que se faz necessário a atenção com os cachorros devido ao cuidado com a saúde pública, posto que podem, como todo ser humano maltratado, transmitir doenças.  

Sinto-me feliz por ter adotado duas cadelas de rua. A Deia e a Pipa. Ambas estavam abandonadas e em estado precário. Ao acolhê-las tive a oportunidade de lhes oferecer uma vida digna. A Deia ficou conosco por mais de dez anos e faleceu já bem velha. Faz cinco anos que pegamos a Pipa no alto da estrada e ela está linda. Os cães adotados nos olham com o brilho da gratidão, expressam afeto profundo e estão sempre prontos a nos oferecer presença e solidariedade. A felicidade deles é estar ao nosso lado.

Certa vez, escutei dizer que os cães, não somente os de rua, são anjos que permanecem em nossas vidas em momentos especiais. Posso até dizer, por experiência própria, que estão ao nosso lado em situações difíceis e nos consolam com suas atitudes e gestos, na maioria das vezes silenciosos. Os cães possuem missões com os humanos, e, nós, também, com eles, ao torná-los, através da convivência, seres mais evoluídos.

Eu me encanto com Nova Friburgo pelo cuidado com que a população tem com os cachorros de rua. Certa vez, andando, de manhã, pela Rua Monte Líbano, vi um lojista colocando a vasilha de ração e água na porta da loja. Parei e admirei, sorridente. Então, ele me disse: eles vêm lá do alto das Braunes para comer todos os dias. Nos dias seguintes, quando ia para o centro, via cachorros descendo em passos firmes. Meu coração aplaudia os lojistas.

Faz tempo que li o livro da Lygia Bojunga, “Os colegas”, clássico da literatura infantil, premiado pelo Concurso de Literatura Infantil do Instituto Nacional do Livro em 1971. A escritora recebeu pelo conjunto de sua obra o Prêmio Christian Andersen, considerado o Prêmio Nobel da Literatura Infantil. “Os colegas” aborda a amizade entre animais abandonados: os vira-latas Virinha e Latinha, o coelho Cara de Pau, a cachorrinha Flor-de-Lis e o urso Voz de Cristal. Eles enfrentam o abandono e a solidão, constroem um lar, experimentam aventuras até encontrarem um modo criativo de viver. Guardo-o com carinho na estante e, agora mesmo, estou com ele em minhas mãos com a séria intenção de o reler.

Outras obras literárias contam histórias que envolvem a relação dos cães com seus donos. O livro “Marley e eu” é uma história emocionante baseada em fatos. O escritor e jornalista John Grogan conta relação com seu cão ao longo de treze anos, tempo em que Marley fez parte da sua vida familiar. O livro foi publicado em 2005, nos Estados Unidos. É considerado um best seller.

O que aconteceu recentemente com o vira-lata Orelha cortou o coração de todos nós. Espero que sua trágica morte se transforme em alerta para a atenção e respeito com os cachorros de rua, que as penalidades contra os animais sejam mais rigorosas. Que eles, sucumbidos ao abandono, sejam acolhidos pelas energias universais como seres abençoados.

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Tereza Cristina Malcher Campitelli

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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