Notícias de Nova Friburgo e Região Serrana
Gratidão e empatia

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
Estou numa fase de envolvimento com a espiritualidade, talvez por já ter passado dos 70 anos, ter adquirido uma visão mais humanista. Uma amiga, a quem admiro e respeito, me apresentou um livro escrito e publicado por seu filho, Carlos Augusto de Araújo Vieira, “Gratidão e o sentido da vida: uma perspectiva cristocêntrica”. Confesso não ter o costume de ler textos religiosos, mas o coloquei na minha mesinha de cabeceira e comecei a lê-lo antes de dormir.
A palavra gratidão me tocou com gentileza. Logo, me lembrei de uma outra grande amiga, psiquiatra e psicanalista, que certa vez me disse, com um desapontamento cobrindo o rosto: “A gratidão é um sentimento difícil de se ver”. Nunca me esqueci dessa fala, vinda de uma médica que lida diariamente com as emoções humanas.
Depois que comecei a ler o livro, perguntei a algumas pessoas o que elas pensavam a respeito da gratidão e todas, sem exceção, me disseram o mesmo. Então, resolvi mergulhar a fundo no tema, talvez um dos mais complexos a serem abordados. Tão logo iniciei minhas pesquisas, me deparei com o conceito de empatia. Ou seja, a gratidão nasce e se fortalece através da empatia, dois sentimentos civilizatórios que humanizam as relações sociais e afetivas. Elas habitam em cada gesto e no olhar, nas ações e nas palavras, podendo estar presentes em todos os momentos quotidianos. A frase de Alberto Caeiro, heterônimo (*) de Fernando Pessoa, resume a dinâmica existente entre empatia e gratidão. “A beleza pura de uma flor, sem necessidade de interpretações metafísicas ou filosóficas, é suficiente para justificar a existência. A vida vale a pena pelo simples fato de existir e ser sentida”
A gratidão é um sentimento profundo que reconhece o valor das coisas, dos favores e bençãos recebidas, um modo de apreciar e engrandecer o bem-estar e a positividade da vida. Há quem diga que é guardada nas memórias do coração e alimentada pelas sensações de suficiência, estado emocional de satisfação e aceitação em que o indivíduo reconhece o valor, as possibilidades e as limitações de si, do outro e das circunstâncias.
Amigos, quem é grato possui nobreza, sabedoria e sinceridade. A gratidão é um tesouro que devemos aprender a cultivar a partir da percepção de não ser possível dar conta de tantas tarefas e responsabilidades, bem como do reconhecimento dos esforços empreendidos por outros para que possamos fazer nossas pequenas e grandes conquistas. É um gesto de humildade.
A empatia é a capacidade que uma pessoa tem de se colocar no lugar do outro, compreender suas emoções, pensamentos e atitudes, mesmo sem concordar. É uma percepção sensível e inteligente.
Como percebemos o outro através da intuição e dos sentidos (visão, audição, tato, olfato), como também somos seres situados em circunstâncias sociais, históricas e culturais, em relações familiares, afetivas, amorosas e profissionais, a empatia caminha, de modo consciente ou não, por todas essas esferas.
A empatia é um sentimento livre. Pode acontecer naturalmente, como através de um processo reflexivo mais ou menos profundo. Em todos os casos, mesmo acontecendo numa fração de segundos, o tempo de convivência e observação do outro vai delineando o sentimento empático. Aliás, na vida, tudo é passível de transformação.
A empatia é a arte da conexão entre pessoas, enquanto a gratidão é a arte do reconhecimento. São sentimentos pautados em virtudes e na presença. São apreendidos e constituem os fundamentos das relações humanas sinceras, que emergem do entendimento das condições reais. O dinamismo entre a empatia e a gratidão é a retroalimentação quando é criado um ciclo positivo de entendimento e colaboração.
Somos seres de relacionamento e afetividade. Não vivemos isolados, num universo à parte. Apesar de nascermos e morrermos sozinhos.
(*) Heterônimo é uma personalidade criada por um autor e surge na literatura como um autor completo: com nome, biografia, estilo próprio e visão de mundo particular. Fernando Pessoa tinha mais de 70, como Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Deixe o seu comentário