Alice

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 17 de março de 2026
por Tereza Malcher

Alice, idealizada pelo romancista, contista, fabulista, poeta, desenhista, fotógrafo e matemático Charles Lutwidge Dodgson (1832- 1898), reverendo anglicano, conhecido por Lewis Carrol, é a protagonista do livro “Alice no País das Maravilhas”, publicado em Londres, em 1865, uma das mais conhecidas personagens da literatura mundial.

Quando despontou em mim o interesse em escrever histórias para crianças e jovens, conversei com Maria Alice Barroso (1926 – 2012), jornalista, escritora e diretora da Biblioteca Nacional na época. Ao longo da conversa, que não deixou de ser uma aula de literatura, ela me disse: Você precisa ler Alice no País das Maravilhas, um espetáculo de criatividade”. Lewis Carrol foi um escritor que mergulhou no mundo da fantasia para criar a sua mais famosa história.

O livro é uma viagem pela literatura nonsense, subgênero literário que não respeita a lógica do mundo real, em que o leitor pode encontrar sentido nas circunstâncias sem-sentido e absurdas. Através de uma narrativa fantástica, o livro é uma viagem ao imaginário, tendo nascido nas histórias que o reverendo Charles contava para Alice Liddell e suas irmãs, Edith e Lorina. Ele era amigo da família e costumava passear com as crianças, quando contava histórias para entretê-las. Numa tarde de 1862, ele começou a narrar as aventuras de Alice no mundo subterrâneo. Alice tanto gostou que lhe pediu para que as escrevesse. Charles se pôs a escrevê-las e desenhá-las, levando um ano para fazê-lo. No Natal de 1864 ofereceu à menina.

Atualmente, 160 anos após sua publicação, “Alice no País das Maravilhas” é uma obra popular, com mais de 170 traduções para diversas línguas. É uma obra global com vários tipos de adaptação para o cinema e a televisão, o teatro e o desenho animado, dentre outras. Um livro que deve fazer parte da estante de uma casa, principalmente se houver crianças, posto que sua narrativa é um convite ao maravilhoso mundo dos sonhos.

Há interpretações com críticas severas à obra. Contudo se abrimos suas páginas à luz de pontos de vista e julgamentos, o livro perde o brilho e a cor, além de se apagar. É uma narrativa que abre ao leitor, seja adulto ou infantil, as portas do lúdico, cujos episódios só podem ser percebidos como uma grande brincadeira. 

O autor empregou na elaboração do texto seus conhecimentos de lógica e matemática, além de escrevê-lo com bom-humor. Ele não teve intenções didáticas, queria divertir as crianças, brincando com palavras, misturando a fantasia com situações cômicas.

“Alice no País das Maravilhas”, narrada na forma de um sonho, conta com diversos episódios aparentemente desconectados, num lugar ou país imaginário onde tudo é caótico, o que nos permite pensar que o autor se sentiu completamente livre para criar. Aliás, faço questão de destacar que o escritor precisa se libertar dos seus medos e preconceitos para se permitir entrar no mundo da fantasia. Principalmente aquele que escreve para crianças e jovens.

É um texto inteligente através do qual a realidade é transformada em situações extraordinárias, possibilitando o leitor pensar e se divertir ao mesmo tempo. Alice é uma criança curiosa e distraída que cai num buraco e chega num país imaginário e vai se transformando e amadurecendo ao longo das cenas. “Tenho uma vaga lembrança de ter me sentido um pouquinho diferente, mas se eu não for a mesma, a próxima pergunta é: Quem sou eu? Essa é a questão.”

Na minha visão, o mais interessante é que Alice vai seguindo sua vida naquele país cheio de desafios e dificuldades. Chora até quase se afogar num mar de suas próprias lágrimas, mas continua, vai se deparando com personagens inusitados que lhe apresentam novas situações, discussões, ataques, encontros e desencontros.

O texto tem valor existencial. É frequentemente usado no contexto empresarial, em palestras de liderança e treinamentos por ser visto como uma metáfora do mundo corporativo, dinâmico, desafiador e em constante processo de mudança. A frase “para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve” é utilizada para evidenciar a necessidade de clareza de objetivos. Ou a sábia proposição “quanto mais corro, mais atrás fico” é útil para os apressados. São frases que eu mesma deveria escrevê-las num quadro e pendurar em cima da minha cabeceira.

Enfim, ler Alice é um estímulo para experimentar as oportunidades que a vida nos oferece, sem ficarmos paralisados ou aborrecidos ante os imprevistos. Um livro para todas as idades.

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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