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Preconceito, uma palavra dúbia

Max Wolosker
Max Wolosker
Economia, saúde, política, turismo, cultura, futebol. Essa é a miscelânea da coluna semanal de Max Wolosker, médico e jornalista, sobre tudo e sobre todos, doa a quem doer.
Na falta de argumentos convincentes, para justificar um condomínio minha casa minha vida, próximo a uma via expressa, a prefeitura alega que os moradores dos bairros Cônego, Cascatinha, Olaria, Bairro da Graça, Granja do Céu, Vale dos Pinheiros e Parque São Clemente são contra moradias para pessoas pouco favorecidas. Esquecem de que esses bairros têm cidadãos de várias classes sociais, entre os seus mais de 90 mil habitantes (Olaria são quase 70 mil, Cônego, Cascatinha, Granja do Céu chega a mais de 11 mil) e que não moram em conglomerados de vários apartamentos, uma vez que são muitas as casas nesses bairros. Isso é uma barreira convincente para a instalação do tráfico de drogas e das milícias, como é de conhecimento geral nos conjuntos do Alto do Catarcione e do Terra Nova. É claro que nos bairros citados ninguém está imune à presença de maus elementos, mas dentro de um limite tolerado. Esse novo condomínio, situa-se no bairro de Olaria, que já tem problemas mais do que suficientes com a complexidade existente no Alto de Olaria.
Os argumentos de que o bairro de Olaria abriga todos os requisitos exigidos para a liberação da verba de 28 milhões de reais, a ser empregada nesse projeto, são facilmente rebatidos. A prestação de serviços públicos se restringe ao posto de saúde Tunney Kassuga, insuficiente para o atendimento num bairro com mais de 70 mil habitantes. A esses seriam acrescidas pelo menos 550 pessoas, se calcularmos em quatro os ocupantes dessas novas moradias. Sem falar que nada impede que usuários de outros bairros também possam se utilizar dos serviços desse local. Não devemos nos esquecer que o projeto de transformar o antigo Sase, numa UPA, jaz adormecido. Talvez, volte com força ano que vem, um ano eleitoral, e seria algo a ser explorado por aqueles que queiram se candidatar.
O trânsito é outra questão a ser levantada, pois ele é caótico em todo o município e Olaria não foge à regra. Estacionamento é um problema e circular de carro pelo bairro, difícil. Além do mais, com as facilidades para se comprar seu próprio veículo, nos dias de hoje, seguramente vai aumentar o material rodante nesse bairro e complicará ainda mais o já conturbado acesso ao Paissandu. Por outro lado, o transporte público será afetado, por receber mais passageiros por dia, principalmente nas horas de pico. Sem contar que o número de pessoas circulando a pé, numa via expressa vai pôr em risco a vida de pedestres e motoristas. Afinal, estamos falando de uma via expressa e não de uma avenida ou uma rua.
As escolas da rede pública são em número de 11, sendo 10 municipais e uma estadual, o que confirma ser um bairro com uma população de crianças e adolescentes bem expressiva. No entanto, não é fácil encontrar vagas porque a procura é muito grande e a disponibilidade limitada. Impossível de avaliar quantos serão os novos alunos a pleitearem matrícula, mas de qualquer maneira as escolas não são muito perto do local escolhido para a construção dos imóveis. Um estabelecimento que não pode faltar, em função do grande serviço que presta às mães que trabalham, as creches, têm um déficit muito grande. Na realidade só encontrei uma.
Com relação à segurança é também uma incógnita, pois onde se tem um grande ajuntamento de pessoas, a vigilância é problemática. Basta ver o que ocorre nas comunidades da capital, onde a população séria e trabalhadora vive refém da bandidagem. Os tiroteios são frequentes, e as vítimas de balas perdidas numerosas. Os relatos que chegam do Terra Nova não são nada promissores, pois a expulsão de moradores, legítimos proprietários dos imóveis, é uma constante. Quem é expulso se conforma, pois vai reclamar com quem? E o risco de retaliação?
Portanto, um projeto de tal envergadura é sempre questionado, ainda mais que, se por um lado vai beneficiar muita gente, também vai impactar a vida de muita gente. E afinal, a máxima de que o direito de um termina quando começa o direito de outro tem, sempre, de ser lembrada, principalmente pelos responsáveis pelos destinos da cidade. Afinal, eles desenvolvem os projetos, mas se implantados, não se preocupam com o que acontece depois. Não deixa de ser preconceito dos grandes afirmar que os moradores dos bairros já citados não querem a companhia de pessoas de baixa renda nas imediações. E que não reclamaram com a construção do condomínio Vila das Flores, também em Olaria, por ser ele de classe média. Mas, são situações completamente diferentes, pois são poucos blocos e não houve, até agora, nenhuma ocorrência ou comentários a respeito.
Dois mil e vinte e seis é um ano de eleições, onde cargos de presidente, governadores, deputados estaduais e federais e senadores estarão em jogo. Claro está que um projeto desses, para quem é candidato, se bem explorado durante a campanha, vai acarretar muitos votos. Nem é preciso assinalar que o projeto envolve uma verba de 28 milhões de reais, quantia em nada desprezível. É uma quantia que será muito bem-vinda ao município, como o próprio prefeito em exercício citou, no vídeo que corre nas redes sociais. Mas, esse projeto tem de ser bem embasado por estudos detalhados do impacto ambiental e de seus desdobramentos na vida dos demais bairros. Na própria via expressa a circulação de veículos começa, em determinados horários a se complicar, com trânsito intenso e que requer atenção dobrada.
Talvez, se um projeto dessa envergadura fosse pulverizado em vários núcleos menores, a oferta de habitação de baixo custo continuaria prestando um belo serviço à população e a gestão desses locais seria mais fácil de ser monitorada. Pois não basta construir, inaugurar e deixar a população entregue a sua própria sorte.

Max Wolosker
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Economia, saúde, política, turismo, cultura, futebol. Essa é a miscelânea da coluna semanal de Max Wolosker, médico e jornalista, sobre tudo e sobre todos, doa a quem doer.
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