Pisar no freio sem pestanejar, mania ou vício

Max Wolosker

Max Wolosker

Economia, saúde, política, turismo, cultura, futebol. Essa é a miscelânea da coluna semanal de Max Wolosker, médico e jornalista, sobre tudo e sobre todos, doa a quem doer.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Quando entrei para autoescola, aos 18 anos, meu professor meu deu a seguinte instrução (naquela época não havia automóveis automáticos): o carro tem três pedais, o acelerador que faz com que ele saia da inércia para se locomover; a embreagem que é para auxiliar na troca de marchas, da primeira (a mais lenta) à quarta que é a de cruzeiro ou velocidade, sem falar da ré, e o freio, que serve para reduzir a velocidade. Mas, segundo ele, esse pedal só deveria ser acionado numa emergência ou ocasionalmente.

Ainda, de acordo com o instrutor, numa velocidade média, o simples ato de tirar o pé do acelerador já contribuiria para reduzir a velocidade do carro, mas, ainda poderia ser acompanhada de uma redução da marcha, por exemplo da quarta para a terceira ou segunda, o que desaceleraria a velocidade mais rapidamente. É claro, que desde que a distância para o carro da frente seja mantida com um mínimo de segurança, pois se ele frear de repente, só nos restará fazer o mesmo, para evitar uma colisão.

Com um carro automático é mais difícil reduzir a marcha, por isso que dentro da cidade, prefiro usá-lo no modo manual. Deixo o automático apenas para a estrada. Infelizmente, os tempos mudaram e o que se vê no trânsito de hoje em dia é uma sucessão de barbaridades, o que resulta num aumento considerável de batidas e acidentes.

Nas autoescolas atuais, acho que o primeiro pedal a ser mencionado e apresentado, pelos instrutores, é o do freio e, talvez, dito ser o mais importante. Daí que não existe coisa mais irritante quer, seja no trânsito urbano ou na estrada, o acender das luzes do freio, do carro da frente, em qualquer situação. Isso, inclusive, obriga a uma atenção redobrada, para evitar colisões. Parece que na falta do que fazer, o motorista aperta o pedal do freio mesmo que não tenha nada a sua frente. Numa curva, então nem se fala, a freada é o primeiro reflexo do condutor, mesmo que a velocidade seja baixa e, a simples retirada do pé do acelerador, mais do que suficiente.

Sério, também, é o fato das pessoas estarem muito apressadas e sem noção de nada. O trânsito está cada vez mais intenso e para se chegar em algum lugar, sem atrasos, é preciso sair de casa mais cedo. Daí, que se por medida de segurança você deixar um espaço maior, entre seu carro e o da frente, não demora muito um apressadinho ocupa esse lugar e o seu conduzir com segurança, vai para o espaço.

Outro problema é o causado pelo motorista de trás, que insiste em colocar seu veículo colado no da frente. Acho que ele pensa que vão lhe dar passagem, mas esquece que um pisar no freio, repentino, pode ocasionar um acidente, exatamente por não haver margem de segurança.

A tendência, no entanto, é piorar, ainda mais agora depois que o Governo Federal tomou essa medida estapafúrdia, de dispensar a obrigatoriedade de frequência dois futuros motoristas a uma autoescola. Por mais despreparo que um instrutor possa ter, ele tem mais experiência do como conduzir corretamente e deve ter noções básicas de direção defensiva, para transmitir ao futuro condutor.

Um motorista, por mais tarimbado que seja, pode não saber ensinar conceitos básicos de uma boa direção nem de alertar para os perigos que determinadas tomadas de posição, no trânsito, podem acarretar. A teoria é muito importante para um conhecimento geral, mas nada substitui a prática e essa tem de ser supervisionada, para que não se adquiram vícios de má condução, que podem colocar em risco a vida do condutor e de outros motoristas ou pedestres. Já que por motivos inconfessáveis, o Governo Federal retirou a obrigatoriedade da frequência em autoescolas, poderia exigir um número de horas em simuladores, como é feito na formação dos pilotos de avião. Ajudaria em muito os futuros motoristas, principalmente quando colocados frente a situações que requerem reflexo ou decisão imediata.

Dirigir tornou-se um pesadelo, mesmo para os motoristas com anos de volante. O trânsito passou a ser caótico, perigoso, onde uma grande maioria de motoristas extravasa suas frustrações e falta de educação e civilidade. A coisa chegou num ponto que se mata por causa de disputas ao volante, das mais simples às mais complexas. Ultrapassagens perigosas, muitas vezes pela direita ou pelo acostamento, freadas bruscas sem a menor necessidade, por insegurança ou por incapacidade de avaliação, estacionamentos em fila dupla, em curvas, sem respeitar a maneira correta de fazê-lo, dirigir em alta velocidade dentro das cidades, trocar, com frequência de pistas, sem atentar para que num engarrafamento ora um lado anda, ora é o outro. Quem tem pressa e não tem paciência, ou sai mais cedo de casa ou pega um Uber. E como a cada ano que passa, mais carros são vendidos e mais pessoas estão aptas a dirigir, o caos só tende a amentar.

Agora infernizar a paciência de quem está atrás, colocando o pé no freio com frequência, na maioria das vezes sem a mínima necessidade, é falta do que fazer e para satisfação das oficinas mecânicas, que devem trocar pastilhas de freios com mais frequência.

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