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O fim da medicina

Max Wolosker
Max Wolosker
Economia, saúde, política, turismo, cultura, futebol. Essa é a miscelânea da coluna semanal de Max Wolosker, médico e jornalista, sobre tudo e sobre todos, doa a quem doer.
Artigo de um médico indignado, mas ainda em pé, no qual assino embaixo e transcrevo por ser a triste realidade. Chamo ainda atenção para o fato do Conselho Federal de Medicina (CFM) ter se acovardado, após o ato deplorável do membro do STF, sr. Alexandre de Moraes, que arvorou para si o papel de “médico” e negou o atendimento imediato, num hospital, após a queda, de uma pessoa de 70 anos e que bateu com a cabeça num obstáculo. O fato de só o ter feito 24 horas depois e alegar que o médico da Polícia Federal, não julgou necessário a ida a um pronto-socorro, esconde duas inverdades. A primeira que a PF não tem médicos de plantão à noite e a segunda que se houvesse um, no local, ignorou o protocolo desse tipo de acidente.
O CFM, que se diz um órgão de classe para orientar e regulamentar os atos médicos, tinha o dever de bater de frente com Alexandre de Moraes, um advogado que virou juiz ao chegar ao STF por indicação, jamais por concurso. Se um simples colega cometesse esse tipo de omissão, poderia ser advertido pelo CRM onde o acidente se deu, ou mesmo pelo CFM.
Após 51 anos de formado em medicina, esse tipo de atuação de leigos que se julgam poderosos pelos cargos que ocupam, me deixa um gosto amargo na boca e uma sensação de que tudo está perdido. Ainda bem que, atualmente, sou jornalista e não tenho mais de aceitar atitudes desse tipo, ainda mais a omissão de um órgão de classe. Eis o texto:
“Sou médico.
E escrevo hoje, não movido por vaidade, corporativismo ou nostalgia barata, mas por indignação ética. Poucos sabem ou poucos ainda se importam por que os médicos tradicionalmente se vestem de branco. Não é moda. Não é vaidade. O branco sempre representou limpeza moral, transparência, honra e respeito. Um compromisso visível de que aquele que o veste não deve carregar manchas, nem nas mãos nem na consciência.
Houve um tempo em que a presença de um médico em uma residência era quase cerimonial. Não por soberba do profissional, mas pelo valor social atribuído ao saber médico. O médico era recebido com respeito porque trazia consigo algo raro: conhecimento a serviço da vida, prudência diante do sofrimento humano e responsabilidade sobre decisões irreversíveis.
Lavava-se as mãos não apenas por higiene, mas como rito simbólico: separar o mundo profano, do espaço do cuidado. A pequena toalha branca oferecida não era luxo era reconhecimento da dignidade daquele ofício. Esse tempo não acabou por falhas da Medicina. Acabou porque retiraram do médico o direito de exercer a Medicina.
Vivemos hoje uma inversão perversa: o saber técnico passou a ser subordinado ao poder político-jurídico. A ciência passou a pedir licença. A ética passou a ser relativizada por decisões que ignoram décadas de formação, protocolos, evidências e responsabilidade profissional.
O Conselho Federal de Medicina, instituição criada para zelar pela boa prática médica e pela segurança do paciente, foi tratado não como guardião da ética, mas como um entrave a ser neutralizado. Seu papel foi esvaziado. Sua autoridade, desconsiderada. Sua função, ridicularizada”. (E o aceitou passivamente).
“O recado simbólico foi claro, quase ofensivo: “Vocês são pequenos. Calem-se.”
“Quando o Supremo Tribunal Federal se coloca acima da ciência médica para decidir o que é ou não ato médico, não estamos mais falando de Justiça. Estamos falando de usurpação de competência. Juízes não diagnosticam. Tribunais não tratam pacientes. Canetas não substituem anos de estudo, residência, especialização e responsabilidade civil e moral.
A pergunta que fica é amarga, mas inevitável: para que médicos, se tudo pode ser decidido por despacho? Para que conselhos profissionais, se o saber técnico não tem mais valor? Para que ética médica, se a ciência passou a ser opcional?
A Medicina está sendo reduzida a um mero instrumento burocrático. O médico, transformado em executor mudo de decisões alheias. E o paciente, este sim, torna-se a maior vítima, exposto a riscos travestidos de progresso e a arbitrariedades disfarçadas de humanismo. Não se trata de direita ou esquerda. Não se trata de conservadorismo ou progressismo. Trata-se de limite. Quando a Medicina perde sua autonomia técnica, toda a sociedade adoece.
Se for assim, fechem-se os conselhos. Tranque-se as faculdades. Entreguem-se as chaves. E que o último a sair, por ironia final, apague a luz. Porque onde a ciência é silenciada, não há cura. Há apenas poder”.

Max Wolosker
Max Wolosker
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