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Jan Ernest Matzeliger, o inventor da máquina de fabricar calçados

Max Wolosker
Max Wolosker
Economia, saúde, política, turismo, cultura, futebol. Essa é a miscelânea da coluna semanal de Max Wolosker, médico e jornalista, sobre tudo e sobre todos, doa a quem doer.
Historicamente, a fabricação de calçados era um ofício que dependia inteiramente de habilidades manuais e ferramentas básicas. Os primeiros calçados foram criados para proteger os pés dos elementos da natureza, como pedras e detritos. As primeiras evidências de protetores dos pés remontam a cerca de 8.000 a.C., com a descoberta de sandálias feitas de palha e fibras vegetais, no Iraque. Elas eram amarradas aos pés com tiras de couro cru e foram usadas principalmente por agricultores. Os egípcios foram os primeiros a criar sapatos com sola dura, feitas de madeira, palha ou couro, que eram usados por pessoas de todas as classes sociais.
Os sapateiros dos séculos passados utilizavam agulhas, fios, martelos, alicates e formas de madeira para moldar os sapatos aos pés de seus clientes. Essas ferramentas simples, porém, eficazes, permitiam aos artesãos criarem calçados duráveis e confortáveis que eram verdadeiras obras de arte personalizadas. No entanto, esses métodos exigiam tempo, a produção era pequena e trabalhava-se do amanhecer ao entardecer. Além disso, eram produtos caros reservados apenas para as classes abastadas. Os demais ou andavam descalços ou usavam proteções rudimentares para proteger os pés.
Uma das grandes dificuldades que esses verdadeiros artesãos encontravam, era prender o cabedal (nome que se dá à parte superior do calçado onde o pé é colocado), na sola do mesmo. Vale a pena assinalar que o sapato como conhecemos hoje tem quatro elementos, o já citado, a palmilha que é a parte interna, localizada logo abaixo do pé, cuja função é o de amortecer o impacto e proporcionar conforto ao caminhar. Temos ainda a sola e o salto, que dispensam comentários. O cabedal pode ser feito com vários materiais como o couro, o tecido ou sintético e é responsável por proteger e envolver o pé, garantindo conforto e segurança ao caminhar.
É aí que entra em cena Jan Ernest Matzeliger.
Matzeliger nasceu em Paramaribo, capital da Guiana Holandesa (hoje Suriname), em 1852 e desde cedo demonstrou grande aptidão para o trabalho com máquinas. Seu pai era um engenheiro holandês e sua mãe, uma escrava negra do Suriname. Enquanto em seu país de origem mostrou algum interesse em mecânica, seus esforços para inventar uma máquina para montar sapatos começaram quando ele se mudou para a Filadélfia, nos Estados Unidos, onde trabalhou em uma oficina mecânica; posteriormente, aos 19 anos foi para a Pensilvânia, onde trabalhou como marinheiro. Em 1877 já dominava perfeitamente o inglês, e se radicou em Lynn, no estado de Massachusetts. Foi nessa cidade, em 1883, após cinco anos de trabalho árduo, que ele construiu e patenteou seu invento, após anos de tentativas e frustações.
Sua máquina automática de montagem de calçados, mecanizando o complexo processo de unir a sola ao cabedal, permitiu aumentar substancialmente a produção de sapatos. Dos 50 produzidos, anteriormente, à mão, seu invento conseguiu a proeza de fabricar 150 pares por dia. Seu engenho reduziu em cinquenta por cento o preço do produto, nos Estados Unidos, e transformou a cidade de Lynn na capital mundial do sapato.
Ele construiu seu primeiro modelo com caixas de charuto de madeira, elástico e arame. Devido aos movimentos complexos necessários para esticar o couro do sapato em torno de uma forma, e à importância do processo de montagem para a aparência final dele, as tentativas anteriores de mecanizar o processo haviam falhado. No entanto, após muitas tentativas e trabalho árduo, o protótipo de Matzeliger estava completo. Seu dispositivo era tão complexo que os examinadores de patentes precisaram vê-lo em funcionamento para compreendê-lo.
Após obter a patente para sua máquina, Matzeliger continuou aprimorando sua invenção até que ela atingiu a marca de 700 pares, por dia. Esse feito barateou ainda mais os custos de produção, tornando os calçados de qualidade, acessíveis a um grande número de pessoas, pela primeira vez.
Em 1889, sua engenhoca era extremamente requisitada, a ponto de ser criada a Consolidated Lasting Machine Co, para fabricá-las, e Matzeliger recebeu uma grande quantidade de ações da empresa. No entanto, sua vida não foi fácil, ele teve muitas dificuldades, contraiu dívidas para conseguir seu objetivo, o que debilitou sua saúde e lhe custou um alto preço. Nesse mesmo ano, ele faleceu de tuberculose, apenas um mês antes de completar 37 anos, fato que o impediu de aproveitar os lucros de sua invenção. A United Shoe Machinery Co. adquiriu, então, sua patente e as ações da empresa.
Para reconhecer o impacto tecnológico e o legado duradouro de Matzeliger, um selo postal comemorativo da herança negra foi emitido, nos Estados Unidos, em sua homenagem, em 1991, mais de 100 anos após sua morte. Muito pouco para a revolução que ele causou na indústria de calçados. E o mais engraçado é que se homenageou o fato de ser negro e não a revolução que ele causou nessa indústria. O mais correto e justo, seria fazer menção às duas coisas.
Portanto, todos os dias, ao calçarmos os nossos sapatos, devemos sempre render homenagens a Jan Ernest Matzeliger.

Max Wolosker
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Economia, saúde, política, turismo, cultura, futebol. Essa é a miscelânea da coluna semanal de Max Wolosker, médico e jornalista, sobre tudo e sobre todos, doa a quem doer.
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