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Seu Silva
Robério Canto
Escrevivendo
No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."
Sujos como soldados que saem da trincheira após terem sobrevivido a duras batalhas
Lembro-me dele quando vejo os atuais técnicos de futebol esbravejando à beira do gramado. Seu Silva não era de esbravejar ou ameaçar. Orientando sua equipe, parecia um macaco sentado num formigueiro: pulava, socava o ar, coçava a cabeça. Mas não gritava e muito menos xingava quem quer que fosse. Após o apito final, imitava um treinador então famoso: “Venceu o melhor”. Qualquer que fosse o resultado, dizia que tínhamos jogado bem e distribuía balas ou laranjas descascadas. Era o nosso prêmio, dando goleada ou levando olé. O nariz de seu Silva, achatado e vermelho, parecia ter levado um soco há poucos minutos. Tinha o queixo pequeno, o lábio inferior caído e a cabeça enterrada no ombro, sem a intermediação do pescoço.
Nós éramos uns moleques desocupados como gatos sem dono e, afora três horas diárias na escola, passávamos o tempo nos terrenos lamacentos de que na época o bairro era farto. Esses, sim, eram verdadeiros mar de lama. As mães se desesperavam, mas como nos manter dentro de casa e ainda esfregar o chão, lavar a roupa, cuidar do bebê, cozinhar? Coitadinhas das mães, que tanto se preocupavam com os filhos, enquanto eles tinham como única preocupação correr atrás da bola. Quando voltavam para casa, estavam sujos como soldados que saem da trincheira após terem sobrevivido a duras batalhas.
De modo que as mães puseram as mãos para o céu quando seu Silva, feio, mas confiável, se dispôs a formar um time, treinar e comandar a garotada. Depois de muitas discussões, com alguma sugestões descabidas como “Arranca Toco”, o time foi batizado de “Real Madride”, um time famoso, cujas façanhas nosso técnico lia para nós. Nossas cores eram o preto e o vermelho, embora não tivéssemos uniforme nem bandeira. Mas não havia dúvida: éramos os rubro-negros do bairro, com muito orgulho.
Como no futebol e na vida nem tudo são vitórias, passamos por uma derrota que fez aquele domingo ficar mais triste do que cemitério em noite de chuva. Jogamos bem, ganhamos de dois a zero. Zeca, nosso goleiro, filho de João Tintureiro (na época preso por agredir o patrão), pois o Zeca pegou um pênalti e ainda encarou o juiz que ameaçou anular nosso segundo gol. Manhã gloriosa, que seria seguida por uma notícia tão triste que pôs fim às justas comemorações, que, sem isso, teriam durado uma semana.
Ficamos do lado de fora da casa, ouvindo os choros e as rezas. Criança não podia participar de velório nem de enterro. Mas sabíamos que seu Silva estava deitado sobre a mesa da sala, finalmente quieto. Aos poucos, fomos ouvindo as conversas dos adultos. Ele tinha almoçado bem, tomado sua cachacinha diária e ido dormir, contente com a atuação de seus atletas (que ele chamava de pupilos). Não acordou. Diz a lenda que suas últimas palavras foram: Digam aos meninos que eles jogaram bem.
Com seu Silva aprendemos que a vida é frágil; a beleza, enganadora e a bondade, rara.
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Microconto: FIM
Depressivo, sentia-se sempre à beira de um abismo fatal – até o dia em que deu um passo à frente.
Robério Canto
Escrevivendo
No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."
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