A proporção áurea

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

quarta-feira, 08 de abril de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Até a beleza pode ser quantificada

Você não está na lista, e eu também fiquei de fora, mas já me consolei. O espelho me obriga a reconhecer que a natureza estava ocupada com coisas mais importantes quando se lembrou de mim. Fez uns rabiscos, passou por cima uma tinta rala e despachou assim mesmo. O importante, no entanto, é que o Brasil ficou em primeiro lugar como o país com as pessoas mais bonitas do mundo, segundo pesquisa de uma empresa americana, que comparou dezessete mil fotos de diversas nacionalidades. O site onde vi essa beleza de notícia abria com Juliana Paes. Em outro, de cara aparecem (e também de corpo) Gisele Bündchen e Adriana Lima. Ou seja, uma artilharia da pesada.  Ficamos na frente da Rússia (e a gente vendo a figura de Putin todo dia na TV!) e da Itália, respectivamente em segundo e terceiro lugares.

De certo ponto para frente, ou melhor, para trás, suspenderam a pesquisa, porque afinal, ninguém queria comprar briga: já pensou a reação do povo que fosse o último classificado? Bem, não devemos deixar de considerar que se trata de uma pesquisa e que existem várias outras, com resultados diferentes. Afinal, para o sapo, a sapa é a coisa mais linda que existe, e nem por ser feia a coruja deixa de achar um coruja que a queira. Além do mais, cronista é uma raça de gente danada para falar do que não entende.

A beleza dos brasileiros é atribuída à mistura que a gente vem fazendo desde 1500, quando os portugueses, feios, fedorentos e maltrapilhos, viram pela primeira vez aquela gente bonita, limpa e cheirosa. Depois vieram os negros, e aí foi um nunca mais acabar de nascerem crianças com caras e cores diferentes. Enfim, foi uma dessas coisas improvisadas que deram certo. É só olhar para Thaís Araújo para concluir que melhor não podia ter ficado.

Gosto é gosto, que seria do amarelo, etc. etc. Apesar disso, até a beleza pode ser quantificada. A matemática traduz a beleza com o número 1,618, a chamada Proporção Áurea. Significa que esse número expressa a relação perfeita entre duas partes de qualquer coisa. Tudo que estiver 1,618 de um ponto a outro é perfeito. Por exemplo, um rosto humano. Se essa for a distância entre o nariz e o lábio, entre uma orelha e outra, entre o queixo e a testa, e em tudo o mais, eis aí a beleza. Isso pode ser aplicado também na natureza, na arquitetura, na literatura, em tudo que possa ser visto, tocado, medido.

Mas não fiquemos tristes se a proporção áurea passa longe de nós. Em questão de beleza, como em tudo mais neste mundo, há muito de misterioso, subjetivo, incompreensível. Quem ama o feio, bonito lhe parece, e nunca falta um chinelo velho para um pé cansado. Alguém há de nos achar, senão bonitos, pelo menos passáveis. Console-se.

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Microconto

Contemplei admirado a madeira maciça da porta que meu amigo fechava. No hospital, lamentei gemendo não ter tirado a mão a tempo.

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

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