O robô cozinheiro

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Pelo menos para uma outra coisa eles servem, se não, como é que iam existir mães e bebês?

Há anos, participei de um encontro cujo tema era a criação dos filhos, situação em que, na época, eu me encontrava, ou, mais propriamente, me desencontrava, com três filhos pequenos e tentando ensinar português a sei lá quantos alunos: eram talvez duzentos: pareciam milhões. Os palestrantes cobriram as mulheres de elogios, todos muito merecidos, sem dúvida. Merecidos e insuficientes, porque elas merecem ser louvadas em prosa e verso, merecem toda a literatura já escrita no mundo.

Foi naquele encontro que conheci o conceito de “maternagem”, que é algo mais do que maternidade. É a maternidade acrescida daquela mensagem que, em silêncio, o coração materno diz ao recém-nascido: “Eu te amo, fique tranquilo”. O bebê reencontra a paz quando é colocado no colo da mãe pela primeira vez.  Ele estava navegando no paraíso e, de repente, foi atirado para fora das águas tranquilas que o agasalhavam. Ao ser abraçado pela mãe, ele descobre que pode voltar a dormir em segurança, e que o mundo aqui fora também pode ser um bom lugar para se viver.

Mas, lá pelas tantas, comecei a me sentir uma vassoura sem piaçaba, uma faca enferrujada, uma colher sem cabo, uma lâmpada queimada. Enfim, um imprestável utensílio doméstico. Ousei então perguntar para que serviam os pais. A resposta que me deram pouco me consolou: “Para dar apoio às mães”.  Calei a boca, mas no fundo achava, e acho, que pelo menos para uma outra coisa eles servem, se não, como é que iam existir mães e bebês?

Agora, tantos anos depois, leio que uma empresa alemã criou um robô que cozinha melhor do que o mais consagrado dos chefs internacionais. Já preparou um cardápio de cento e oitenta pratos, e quem provou diz que são deliciosos. Basta deixar os ingredientes à mão e fazer o pedido, ou os pedidos, porque o danado é capaz de preparar dezenas de refeições ao mesmo tempo e em poucos minutos. Infelizmente, nem adianta você, caro leitor, ou leitora ainda mais cara, querer reservar mesa para um romântico jantar a dois. No momento, saborear as maravilhas desse mestre-cuca está um pouco além dos trocados que você tem no banco. É coisa para o garfo do trilionário Elon Musk.

Até aí tudo bem, sou a favor de todos os progressos, sobretudo o progresso gastronômico. E espero o dia que há de vir em que até assalariado brasileiro poderá sentar-se à mesa e pedir ao garçom: “Traz aqui o robô cozinheiro que eu quero fazer meu pedido diretamente a ele”. Enfim, sonhar não custa nada, é mais barato do que um prato de angu.  

A essa altura, você estará pensando que eu fiz uma sopa maluca, comecei na maternidade e acabei na cozinha. Não é bem assim. É que o robô também lava e arruma as louças e talheres, com robótica perfeição. Diante dessa notícia, eu me lembrei daquele encontro de que falei acima, no qual me senti um inútil, diante da multiplicidade de talentos femininos. Eis que atualmente meu maior orgulho é lavar a louça das refeições. Ponho os pratos, copos e talheres brilhando e me sinto um herói, digno da admiração e do respeito da família e da sociedade. Pois até essa última glória me vai ser tirada, pois tão logo o robô cozinheiro esteja nas lojas, minha mulher vai querer comprar um e aí o que me restará? Dar apoio ao robô, e olhe lá!

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Microconto: Acidente

Saiu do bar já meio tonto e viu os faróis brilhando no cruzamento das ruas. Quando abriu os olhos, só via máscaras, tubos, fios e luzes que piscavam.

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

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