Mundo dos bichos

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

quarta-feira, 13 de maio de 2026
por Robério Canto

Os cães cumpriam seus horários com fidelidade canina. Fosse domingo, feriado ou ponto facultativo

Matador de animais, eu?! Às vezes uma barata cruza o meu caminho e, podendo, eu a evito: que ela siga em frente e cumpra seu destino de barata, que é andar sem destino, pra lá e pra cá, tonta que nem uma barata tonta. No entanto, se eu a encontro se intrometendo onde não é chamada, especialmente dentro de casa, não hesito em dar-lhe um banho de inseticida e, no último caso, uma pisada fatal, que me perdoem as associações defensoras dos animais. Em resumo, sou contra qualquer tipo de violência, mesmo contra um ser primitivo e, vamos falar a verdade, nojento como Dona Baratinha. Só os ataco em legítima defesa.

Mas há alguns anos alguém andou dizendo que eu era, se não um matador, pelo menos um inimigo dos cachorros de rua. Vamos aos fatos: próximo à minha casa, havia uma instituição de saúde onde os espaços eram disputados por pacientes, funcionários e uma respeitável cachorrada. Os pacientes às vezes rareavam, os funcionários às vezes faltavam, mas os cães cumpriam seus horários com fidelidade canina. Fosse domingo, feriado ou ponto facultativo, nem por isso eles deixavam de diariamente assinar o ponto. Se algum bípede ousava incomodá-los, rosnavam e latiam, como é próprio da espécie. À noite, cumpriam o ritual de namorar e procriar, não raro disputando a fêmea a dentadas. Enfim, não era uma vizinhança agradável.

Isso me levou a recorrer a algumas autoridades, sugerindo que arrumassem outra residência para a matilha, de modo que os bichos não mais pudessem ameaçar os usuários do local, nem perturbar minhas noites de sono. Eis aí a verdadeira história, muito diferente da que me valeu a injusta fama de cachorrocida. Bem ao contrário: gosto de todos os animais, são nossos companheiros de travessia, nessa curta viagem que fazemos pelo planeta Terra. E não só cães, gatos e outros mais chegados a nós. Até a incômoda pulga e o desengonçado camelo devem ter alguma finalidade neste mundo, se não, por que a natureza os teria deixado crescer e se multiplicar?

 De modo que fico revoltado quando vejo as crueldades que às vezes acontecem com os nossos vira-latas, verdadeiro patrimônio material do povo brasileiro. Tenho especial simpatia por eles, tão carentes de afeto e até mesmo de água e comida. Os bichos, se os deixamos em seu cantinho, lá ficam eles na boa paz de Deus. E, se alguma vez um deles sai de seu habitat e vem nos incomodar, é porque nós mesmos os desesperamos, queimando as matas, poluindo as águas, disparando foguetes, assim transformando em tormento o que era para eles o paraíso.

É como diz Chico Buarque, em “Passaredo”: “Some, rolinha/anda, andorinha/ Te esconde, bem-te-vi/ voa bicudo/ voa sanhaço/ bico calado/ muito cuidado/ que o homem vem aí/ o homem vem aí/ o homem vem aí”. Sim, para os outros seres somos o mais perigoso dos inimigos. Bem pilheriou Millôr Fernandes, com algum azedume, mas não muito longe da verdade: “O homem é o único animal que não deu certo”.                   

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Microconto: Refeição

Eram pobres, mas moravam ao lado de uma churrascaria. Almoçavam cheiro de picanha todos os dias.

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

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