Notícias de Nova Friburgo e Região Serrana
Histórias alheias 2
Robério Canto
Escrevivendo
No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."
Não é que eu não tenha ideias, é que elas são poucas e, portanto, preciso administrá-las, para que não acabem antes do tempo e me deixem na mão na hora da necessidade. Mais do que com o dinheiro, é indispensável ser sovina com as ideias. O mais prudente é fazer com elas como as pessoas que pulam o almoço para ter o que jantar. Um truque que às vezes salva um cronista menor é recontar histórias de autores mais competentes: não é prova de criatividade, mas também não chega a ser propriamente plágio. Já fiz isso uma vez e, como não fui processado, vou repetir hoje.
De Villas-Bôas Corrêa
Deposto em 45, Getúlio foi para São Borja e não aceitava, mas também não recusava, os insistentes pedidos para que fosse candidato a presidente da República. Nereu Ramos era um dos nomes mais fortes para disputar o cargo. No entanto, o PDS o designou para procurar Getúlio e pedir que ele apoiasse um candidato do partido. O velho Gegê disse que concordava, contanto que o nome indicado fosse o do próprio portador da mensagem. Nereu alegou que não poderia voltar com aquela resposta, pois pareceria que ele, ao invés de representar o partido, representara a si mesmo. O resto é História. Por aí se vê que já houve nesta República homens que zelavam mais pela honra do seu nome do que pela honra de cargos e títulos.
De Machado de Assis
Ao ver um casebre em chamas à beira da estrada, o homem para diante das labaredas. Sentada no chão, uma mulher paupérrima chora tanto que quase se poderia apagar o incêndio com suas lágrimas. Ela é a dona do barraco, sendo aquilo o único bem que ela tem (ou tinha). Quando o homem lhe pergunta se a casa era dela, responde que sim: “É minha sim, meu senhor. É tudo que eu possuía neste mundo”. Educadamente, ele retruca: “Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?" Comovente prova de solidariedade e respeito pela propriedade alheia! O cavalheiro estava bêbado, e Machado, com o seu conhecido pessimismo sobre a natureza humana, acrescenta que não é preciso estar bêbado para se aproveitar do sofrimento alheio. Sim, a triste verdade é que muita gente, justamente quando está mais sóbria, faz exatamente o mesmo.
De Carlos Heitor Cony
Ernesto Cony é o grande personagem do ótimo “Quase memória”, no qual Carlos Heitor Cony narra muitas histórias do pai, um homem tão original que o filho pôde encher as 239 páginas do livro com as aventuras e desventuras em que o velho Cony se metera ao longo da vida.
Uma delas: saindo do almoço num hotel, Cony recebeu do porteiro um pacote que alguém, poucos dias antes, havia deixado para que lhe fosse entregue. Não sendo frequentador habitual do lugar, o escritor estranhou que tivessem deixado justamente ali aquele embrulho para ele. Mas um envelope com seu nome escrito não permitia a dúvida de que ele era o real destinatário. E tudo denunciava o remetente: a letra, o estilo, o cheiro e principalmente o barbante, com um tipo de laço que era especialidade de seu pai. O que não fazia nenhum sentido, pois Ernesto Cony havia morrido dez anos antes.
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Microconto: Pênalti
O Saci Pererê chutou a bola e fez um gol de placa, mas levou o maior tombo.
Robério Canto
Escrevivendo
No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."
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