Uma face que o outro não vê

Camilla Fiorito

Conversas de Dentro

Camilla é friburguense e psicopedagoga. Adora escrever e trabalhar com desenvolvimento socioemocional. Nesta coluna, escreve sobre os encontros entre o social e o emocional - espaços onde a vida, por vezes, nos pede pausa, coragem e escuta.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Desejo, vislumbro, imagino. Percebo o outro e o outro me percebe. Me percebo.

Inúmeras são as possibilidades e visões geradas no fundo de uma mente que não para. O pensamento acelerado aponta caminhos, soluções, processos dentro de uma dinâmica que não cessa.

Ao mesmo tempo, a forma como o outro nos enxerga não será como somos de verdade, pois a percepção que projetamos sobre alguém se confunde com aquilo que temos como entendimento de vida, valores morais, comportamento.

Essas variações fazem com que as nossas lentes em relação ao outro fiquem impostas, podendo trazer desconforto, desprazer, incômodos sentidos na íntegra.

Os recortes desenhados por um olhar inflexível mostram a não aceitação de como funcionamos na nossa essência. Aquilo que não foi captado ou não deixamos captar, cria nuances que precisam ser descortinadas, mas não por desejo nosso e sim por uma necessidade do outro.

A aceitação de que possuímos especificidades, latência, bagagem, conhecimento, formas de ver o mundo e também de senti-lo é um caminho longo. Requer sensibilidade, empatia, disponibilidade, entendimento de comportamento.

Traz uma lucidez do quanto nos expressamos de diversas formas, onde o que pode ser martírio para um, é tranquilidade para o outro. Assim como uma rotina de suporte pode significar a aceitação do funcionamento de alguém para um e, simultaneamente, trazer uma visão de sofrimento para o lado oposto. Ou até mesmo a ausência de um sorriso visível esconder a felicidade vivida diariamente e gargalhadas soltas se encontrarem com lágrimas que sangram o coração.

A face que o outro não vê precisa ser resguardada, respeitada. Não é visível aos olhos, mas sentida com o coração. Nem todos conseguem enxergá-la.

Isso me desperta um calendário interior, onde, há anos atrás, escutei uma pessoa muito querida por mim, falar algo que nunca mais esqueci. Sinalizou que podemos escutar muitas coisas do outro, pois não controlamos o pensamento que se transforma em ação a qualquer segundo, mas podemos e devemos mostrar com clareza aquilo que ultrapassa a nossa "cerquinha invisível", muito conhecida como as limitações que damos e deixamos ultrapassar.

Na ultrapassagem, as pegadas passam a vir à galope, como em uma grande e tumultuada cavalgada. As madeiras que sustentam a base são quebradas. A grama em volta, arrancadas com raiz e deixadas de lado em um canteiro, sem saber se serão replantadas.

Evidencia um excesso de velocidade que fere, rompendo a linha tênue que envolve as relações, cobrindo com névoa o que antes exalava avença.

Nessa hora, se acolha, mostre os seus limites e traga verdade dentro da sua existência.

Quem determina a sua "cerquinha" é você. Nem todos estão prontos para enxergar a sua face que não é mostrada.

Até a próxima quarta!

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Camilla é friburguense e psicopedagoga. Adora escrever e trabalhar com desenvolvimento socioemocional. Nesta coluna, escreve sobre os encontros entre o social e o emocional - espaços onde a vida, por vezes, nos pede pausa, coragem e escuta.

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