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Nem toda dor faz barulho

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
Existe um hábito curioso da vida moderna: aprendemos a perguntar “como você está?” esperando sempre a mesma resposta. “Tudo bem.” Às vezes dita com um sorriso. Às vezes acompanhada de uma piada. Às vezes tão automática que nem quem responde percebe que deixou de dizer a verdade há muito tempo.
Vivemos a era da exposição permanente. Nunca mostramos tanto da nossa rotina. Publicamos viagens, conquistas, aniversários, refeições, treinos e momentos felizes. Mas, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos escondido tanto aquilo que realmente sentimos.
Há dores que não deixam hematomas. Não aparecem em exames de sangue. Não engessam braços nem exigem pontos. Ainda assim, são capazes de paralisar uma vida inteira. A depressão é uma dessas dores silenciosas. Ela chega sem pedir licença e, muitas vezes, instala-se justamente onde todos acreditavam existir apenas felicidade.
Talvez por isso seja tão difícil compreendê-la. Quem olha de fora enxerga emprego, família, amigos, projetos e motivos para sorrir. Quem vive por dentro, muitas vezes, enxerga apenas um peso que não consegue explicar. É como caminhar carregando uma mochila invisível que aumenta de peso a cada amanhecer.
E há algo ainda mais cruel: a culpa. A culpa por não conseguir reagir. Por não sentir alegria quando tudo parece estar dando certo. Por ouvir frases como “isso é falta do que fazer”, “você precisa pensar positivo” ou “todo mundo tem problemas”. Como se a tristeza profunda pudesse ser vencida apenas por força de vontade.
A verdade é que saúde mental não é fraqueza. Nunca foi. Assim como ninguém escolhe quebrar uma perna, ninguém escolhe adoecer emocionalmente. O cérebro também adoece. As emoções também entram em colapso. E reconhecer isso talvez seja um dos maiores avanços que nossa sociedade ainda precisa fazer.
Um dos maiores desafios dos nossos tempos seja justamente esse: aprendemos a cuidar de quase tudo, menos de nós mesmos. Fazemos revisões no carro, atualizamos o celular, organizamos a agenda, cumprimos prazos e metas. Mas adiamos indefinidamente aquela conversa difícil, aquela pausa necessária ou a decisão de procurar ajuda. Como se a mente pudesse esperar indefinidamente por um momento mais conveniente.
Vivemos conectados o tempo inteiro, mas, paradoxalmente, cada vez mais sozinhos. Colecionamos seguidores, curtidas e mensagens instantâneas, enquanto as conversas profundas se tornam raras. A tecnologia aproximou distâncias geográficas, mas nem sempre conseguiu aproximar corações. E há dores que nenhuma notificação é capaz de silenciar, porque elas só encontram alívio quando encontram alguém disposto a ouvir.
Os números ajudam a mostrar que não estamos diante de um problema individual. A ansiedade e a depressão cresceram de forma significativa nos últimos anos, especialmente após a pandemia. Milhões de brasileiros convivem diariamente com algum transtorno mental, muitas vezes sem diagnóstico, sem tratamento ou, pior, sem coragem de pedir ajuda por medo do julgamento.
Talvez porque ainda exista uma expectativa de que sejamos fortes o tempo todo. Como se maturidade significasse suportar tudo sozinho. Como se pedir ajuda fosse sinal de derrota. Não é. Nunca foi. Há uma coragem enorme em admitir que algo não vai bem.

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
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