A regulamentação da profissão representa um marco histórico para os arteterapeutas brasileiros e fortalece uma prática que utiliza a arte como instrumento terapêutico de acolhimento, expressão e autoconhecimento.
Existem profissões que começam muito antes de receberem reconhecimento oficial.
Durante décadas, a arteterapia encontrou espaço em consultórios, escolas, hospitais, instituições, projetos sociais e iniciativas independentes, onde a arte deixou de ser apenas expressão estética para tornar-se também instrumento de cuidado, escuta e transformação. Agora, essa trajetória ganha um novo marco com a sanção da Lei nº 15.435, de 17 de junho de 2026, que regulamenta o exercício da profissão de arteterapeuta no Brasil.
A legislação reconhece o arteterapeuta como o profissional que utiliza recursos das artes visuais, música, dança, teatro, literatura e outras linguagens expressivas para favorecer processos terapêuticos voltados ao autoconhecimento, à autoexpressão, ao desenvolvimento humano e à prevenção e reabilitação de transtornos mentais e psicossomáticos.
Para o presidente em exercício da Associação de Arteterapia do Rio de Janeiro (AARJ), Paulo Antunes, a regulamentação representa um avanço histórico tanto para a profissão quanto para a sociedade. "A regulamentação nos coloca em um novo patamar de serviços oferecidos à sociedade", resume.

Segundo ele, o reconhecimento legal amplia a atuação dos profissionais em instituições públicas e privadas, fortalece a segurança da população ao estabelecer critérios para formação e qualificação e resulta de décadas de pesquisas, prática clínica e reconhecimento social da arteterapia.
Embora considere a regulamentação uma conquista histórica, Paulo Antunes afirma que o próximo passo será consolidar um conselho profissional, ampliar a oferta de cursos de graduação e fortalecer a presença da arteterapia nos serviços públicos e privados de saúde.
Mas compreender esse novo momento exige ir além da legislação. É preciso olhar para as histórias de quem construiu essa profissão muito antes de ela ser oficialmente reconhecida.
Entre esses profissionais está a arteterapeuta Katia Regina Gonzales. Professora de Ciências e Biologia, especialista em Psicopedagogia, Orientação Educacional, Administração e Supervisão Escolar, Arteterapia em Educação e Saúde e Formação em Arteterapia, ela construiu sua trajetória sempre muito próxima da educação, da criatividade e das relações humanas.
Ao recordar a infância, Katia lembra das roupas que costurava para as bonecas das colegas utilizando retalhos separados pela avó. "Sempre foi terapêutico."

Mais tarde, essa relação com a criação esteve presente na docência, nas oficinas de artesanato, no antigo ateliê e nos cursos que ministrava. Sem perceber, já criava espaços onde as pessoas encontravam escuta, acolhimento e oportunidade para compartilhar suas histórias.
Foi justamente a convivência com diferentes pessoas que consolidou sua visão sobre o cuidado. "Ouvindo, conhecendo e acolhendo uma diversidade de pessoas e suas realidades."
Um episódio marcou definitivamente esse caminho. Durante um curso de artesanato, uma aluna, que inicialmente buscava apenas aprender uma técnica, revelou mais tarde que havia encerrado um relacionamento marcado por violência psicológica. Com o conhecimento adquirido nas aulas, passou a produzir peças, conquistou autonomia financeira e iniciou um processo de reconstrução da própria vida. "Percebi que não era aprender uma técnica. Era ter um espaço seguro para falar de si." Foi dessa experiência que nasceu seu interesse definitivo pela arteterapia.
"As pessoas sempre buscam pertencimento. A busca por uma aula ou por uma técnica é o que as move inicialmente. Quando são acolhidas, sentem que pertencem." Segundo Katia, esse é justamente um dos maiores equívocos sobre a profissão.
"A arteterapia utiliza diferentes materiais expressivos para que o indivíduo consiga materializar aquilo que ainda não consegue expressar por palavras. Esses materiais ajudam a desbloquear emoções e tornam o processo terapêutico, muitas vezes, menos doloroso."
Paulo Antunes destaca que essa abordagem pode beneficiar pessoas de todas as idades em consultórios, hospitais, escolas, clínicas, projetos sociais e outros espaços. Entre as experiências que mais o marcaram, lembra um trabalho realizado com pessoas em recuperação da dependência química que culminou na montagem de um espetáculo teatral produzido pelos próprios participantes, fortalecendo significativamente o processo terapêutico.
Para Katia, entretanto, talvez a principal transformação aconteça dentro de cada pessoa. "O autoconhecimento é essencial para uma vida saudável. Todos deveriam fazer terapia", sugere.
Por isso, ela mantém uma formação permanente por meio de cursos, seminários e estudos voltados à Psicologia Analítica, Psicanálise, educação e processos criativos. Para ela, a regulamentação representa muito mais que um reconhecimento jurídico. "Significa o reconhecimento de uma prática eficaz, construída com muita dedicação, responsabilidade e estudo contínuo."
Paulo Antunes acredita que esse é apenas o início de uma nova etapa, marcada pela ampliação dos espaços da arteterapia e pelo fortalecimento do conhecimento da população sobre sua importância.
Enquanto esse futuro começa a ser construído, histórias como a de Katia ajudam a traduzir aquilo que nenhuma legislação consegue definir sozinha. Mais do que regulamentar uma profissão, a lei 15.435 reconhece oficialmente um campo de atuação que há décadas transforma vidas por meio da escuta, da criatividade e da sensibilidade.
E talvez a própria Katia resuma esse novo capítulo da melhor maneira possível. "Acolher é dar ao outro a oportunidade de pertencimento."

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