A Esperança em cada pincelada

Artista plástico Marcos Vinicius de Palma
sexta-feira, 03 de julho de 2026
por Marcelo Gonzales
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

Foi por indicação da curadora Nai Frossard que o Caderno Z chegou ao trabalho do artista plástico Marcos Vinicius de Palma. Bastou conhecer um pouco de sua trajetória para entender que, mais do que retratar montanhas, rios e florestas da região serrana, ele construiu uma relação profunda com a paisagem que escolheu como lar. Em São Pedro da Serra, onde vive com a família há quase uma década, encontrou não apenas o cenário ideal para pintar, mas também um modo de vida em que arte, natureza e cotidiano caminham lado a lado.

Filho de uma artista formada em Belas Artes e de um médico, Marcos costuma dizer que a arte sempre esteve presente em sua história. Cresceu cercado por desenhos, imagens, catálogos e referências visuais. Ainda criança, descobriu que desenhar era tão natural quanto respirar. Talvez por isso goste de afirmar que nunca começou a desenhar. Apenas continuou fazendo aquilo que, de alguma forma, sempre existiu dentro dele.

A própria ideia de inspiração ganhou um significado especial em sua vida. Nascido com uma alteração no diafragma, enfrentou dificuldades logo nos primeiros instantes após o parto. Hoje, ao recordar essa história, diz que a esperança começou na sua primeira inspiração, quando os pulmões finalmente se encheram de ar. Para ele, essa palavra não representa apenas o ato de criar, mas também a capacidade de acreditar, de seguir em frente e de transformar a sensibilidade em expressão artística.

Formado pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Marcos construiu sua trajetória sem abrir mão de um princípio que considera essencial. Sempre que possível, prefere pintar diante da própria paisagem. O cavalete acompanha o artista por cachoeiras, montanhas e estradas da região de Boa Esperança, Lumiar, São Pedro da Serra e arredores. Em vez de utilizar fotografias como referência, ele escolhe observar diretamente a natureza.

Na sua visão, a fotografia possui linguagem própria, mas reduz parte da profundidade que o olhar humano é capaz de perceber. Estar diante da paisagem permite compreender a luz, a distância, o relevo e as pequenas mudanças que acontecem ao longo do dia. É uma experiência que, segundo ele, não pode ser substituída.

Esse compromisso com a observação também explica a riqueza de detalhes presentes em suas telas. Marcos costuma dizer que uma pequena pincelada possui a mesma importância de um grande gesto. Cada detalhe faz parte de uma construção paciente, quase contemplativa, guiada pelo respeito ao cenário que está diante de seus olhos.

Apesar da sólida formação acadêmica, o artista acredita que a arte não nasce apenas da técnica. Para ele, o verdadeiro aprendizado acontece quando o artista também evolui como ser humano. Mais do que repetir fórmulas, pintar significa descobrir novos caminhos, buscar autenticidade e permitir que a obra fale por si, sem interferências desnecessárias.

Essa filosofia acompanha também sua vida em São Pedro da Serra. Foi ali que encontrou o equilíbrio entre a produção artística e a convivência familiar. O ateliê instalado na própria residência permite dividir o tempo entre o trabalho, a esposa e as filhas, transformando a casa em um espaço onde a arte faz parte da rotina de todos.

Entre tantas exposições e reconhecimentos, um dos momentos mais marcantes de sua carreira não aconteceu em uma galeria. Enquanto pintava uma paisagem no Poço Belo, em Boa Esperança, foi acompanhado pela curiosidade de um menino de cerca de sete anos. A cada nova pincelada, a criança vibrava como quem assistia a uma grande partida, repetindo que a pintura estava ficando cada vez melhor. Ao final, apontou exatamente o detalhe que, para Marcos, dava vida à obra. A simplicidade daquele olhar emocionou o artista e permanece, até hoje, como um dos maiores reconhecimentos que já recebeu.

Talvez porque enxergue a arte dessa maneira, Marcos Vinicius de Palma não procura apenas registrar montanhas, árvores ou cachoeiras. Suas telas convidam o observador a permanecer diante da paisagem, desacelerar o olhar e perceber aquilo que, muitas vezes, passa despercebido na pressa do dia a dia.

Em tempos de imagens instantâneas e consumo acelerado, sua pintura segue outro ritmo. Um ritmo em que contemplar também é uma forma de viver. E onde cada pincelada carrega a mesma esperança que, segundo o próprio artista, acompanha sua história desde o primeiro fôlego de vida.

 

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