Os Pequenos Gigantes

No Dia Internacional das Micro, Pequenas e Médias Empresas, Nova Friburgo revela a força silenciosa que sustenta sua economia, suas histórias e sua identidade
sexta-feira, 26 de junho de 2026
por Marcelo Gonzales
Foto: Magnific
Foto: Magnific

No Dia Internacional das Micro, Pequenas e Médias Empresas, Nova Friburgo revela a força silenciosa que sustenta sua economia, suas histórias e sua identidade

Algumas cidades são reconhecidas por grandes marcos. Outras, pelo que acontece todos os dias, longe dos holofotes. Em Nova Friburgo, o que sustenta a vida econômica e social não está apenas nas grandes estruturas industriais ou nos cartões-postais da serra. Está também nas portas que se abrem cedo, nas famílias que atendem no balcão, nos pequenos galpões de produção, nas lojas de bairro, nos serviços que parecem simples, mas que mantêm a cidade em funcionamento contínuo.

No Dia Internacional das Micro, Pequenas e Médias Empresas, celebrado em 27 de junho, esse tecido invisível ganha nome, escala e relevância. Mais do que uma data simbólica, é um convite a olhar para o que move a economia por dentro.

Segundo dados do Sebrae, cerca de 89% dos negócios da Região Serrana I são micro e pequenas empresas, com aproximadamente 58% concentradas em Nova Friburgo. Um retrato que ajuda a entender por que o comércio de bairro, a produção industrial, os serviços e o turismo não são apenas setores, mas parte da respiração diária do município.

Nesse cenário, o trabalho da coordenadora do Sebrae Regional Serrana I, Fernanda Gripp, e da analista Roselane Muzy, aparecem, se complementando, como eixo de leitura e articulação. O Sebrae atua não apenas na formação e consultoria, mas como um ponto de conexão entre empreendedores, inovação e políticas de desenvolvimento. 

 (Fernanda Gripp, coordenadora do Sebrae Regional Serrana I)

 

 ( Roselane Muzy, Analista do Sebrae Regional Serrana I)

A leitura que fazem do território é direta. Os pequenos negócios sustentam empregos, mantêm a circulação de renda dentro da cidade e ajudam a preservar a identidade econômica e cultural de regiões inteiras, da moda íntima ao turismo, da gastronomia à agricultura familiar.

Elas lembram ainda que, se por um único dia esses negócios deixassem de funcionar, o impacto seria imediato. Padarias, oficinas, salões, restaurantes e comércios de bairro interromperiam a rotina da cidade, revelando o quanto essa engrenagem é indispensável. Mais do que economia, falamos de vida cotidiana.

É nesse tecido que surgem histórias como a de Raphael Muniz e Vitoria Souza, casal que transformou o que começou como renda extra em duas frentes de negócio. A Inova A Laser, voltada à fabricação e vendas regionais, e a In Store, com foco em produtos para estética, beleza e saúde e forte atuação em marketplaces em todo o país.

O início foi simples, quase silencioso. A formalização veio da necessidade de emitir nota fiscal para clientes. A expectativa, naquele momento, não ultrapassava a ideia de um complemento de renda. Mas o caminho foi mudando de escala conforme os desafios apareciam. A falta de capital, os impactos da pandemia e a necessidade de estruturação exigiram adaptação constante.

Eles não falam em desistência. Falam em continuidade. Em vontade de se tornar referência. E nessa travessia, o Sebrae aparece como ponto de apoio importante na organização do negócio e na busca por direção em momentos de dificuldade.

A relação com a cidade também pesa. Foram os clientes locais que sustentaram os primeiros passos, com confiança e indicação. Com o tempo, vieram novos mercados, mais especialização e uma mudança significativa de vida. Hoje, eles falam em qualidade de vida ampliada e em responsabilidade maior com equipes e clientes.

Na memória do percurso, fica uma frase simples que sintetiza a trajetória. O trabalho devolve.

Se o casal representa a expansão do pequeno negócio para além das fronteiras locais, outra história revela uma transformação ainda mais estrutural, onde sustentabilidade e identidade empresarial se entrelaçam. É o caso da Frimatec Marcenaria, conduzida por Denise Figueira Rodrigues de Barros e seus irmãos Danilo, Odir e Regiani.

A empresa nasceu em 1985, a partir da decisão do pai, Hermes Rodrigues, de deixar uma sociedade e iniciar um novo caminho ao lado dos filhos. O que começou como uma marcenaria familiar atravessou décadas, mudanças de mercado e um ponto de ruptura. A tragédia de 2011, que impactou diretamente a região, trouxe uma consciência mais profunda sobre o ambiente e o futuro da produção.

A virada veio quando a família encontrou fornecedores com cadeia sustentável e decidiu procurar orientação do Sebrae. A partir daí, a jornada ESG ganhou forma, com apoio técnico e reestruturação completa de processos. Missão, visão e valores foram definidos, seguidos pela criação de código de conduta e por mudanças diretas na produção.

A Frimatec passou a operar em diferentes frentes, como móveis planejados, mostruários de fechaduras, paletes certificados para exportação e nichos voltados ao mercado digital. Em cada segmento, a lógica passou a ser a mesma. Redução de impacto, rastreabilidade de materiais e busca por fornecedores certificados.

A transição também chegou à energia, com a instalação de placas fotovoltaicas, e ao reaproveitamento de resíduos, transformados em novos produtos. O que não pode ser reaproveitado segue para destinação ambiental adequada, com controle documental.

Hoje, a empresa se apresenta como a primeira marcenaria ecologicamente correta do estado do Rio de Janeiro, resultado de uma decisão que não foi apenas técnica, mas de posicionamento.

Entre uma história e outra, o que se desenha é um mesmo movimento. Pequenos negócios que deixam de ser apenas unidades econômicas e passam a ocupar o centro da vida urbana, cultural e social de Nova Friburgo.

No fim, o Dia Internacional das Micro, Pequenas e Médias Empresas não aparece como celebração distante. Ele se aproxima da realidade concreta de quem abre a porta todos os dias, enfrenta instabilidade, reinventa processos e segue em frente. São negócios que, somados, não apenas movimentam a economia. Eles sustentam a cidade em sua forma mais essencial.

 

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