Projetos em Friburgo buscam formar novos leitores

Enquanto 53% dos brasileiros não leram em 2024, cidade celebra o Dia do Livro com ações consolidadas de doação e novos espaços de leitura inclusiva para crianças e jovens.
segunda-feira, 27 de outubro de 2025
por Estagiária Isabella Rodrigues com supervisão de Henrique Amorim
Projetos em Friburgo buscam formar novos leitores

Segundo uma pesquisa feita pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), no ano passado, 53% da população brasileira não leram nem parte de um livro durante o ano. Isso mostra uma diminuição de cerca de 6,7 milhões de leitores no país.

Existem alguns projetos sociais em Nova Friburgo que estimulam crianças, jovens e adultos a cultivarem o hábito da leitura e a consumirem cada vez mais livros, como o projeto sociocultural “A árvore que dá livros”,  que chega à sua 14ª edição.

O projeto existe desde 2012, e atualmente, conta com a organização das três idealizadoras: Rosangela Buarque, Luisa Machado e Scheila Santiago. A parceria surgiu através de uma fotografia na internet, uma árvore de natal composta por livros, vista por Rosangela e Luisa, que logo entraram em contato com Scheila para, juntas, aperfeiçoarem o projeto.

“A ideia que tivemos foi de uma árvore feita com livros doados para a comunidade. É uma iniciativa que tem como objetivo o incentivo à leitura para todos os públicos de todas as idades”, explica Rosangela.

O impacto social da Árvore é nítido. Desde sua primeira edição tornou-se um sucesso na cidade, arrecadando mais de 15 mil livros ao longo desses anos. Em 2012, foram doados cerca de 800 livros, apesar de muitos serem livros didáticos antigos, enciclopédias, e revistas com informações ultrapassadas, ao longo dos anos o público do projeto entendeu que o principal gênero doado deve ser o literário. Luisa conta que, “no último ano, a Árvore recebeu cerca de 1.500 livros, com uma pequena porcentagem sendo de livros didáticos”.

Ela também aponta que, desde a primeira edição, a participação de crianças e jovens é fundamental, e que, ao longo do tempo, o projeto incentivou cada vez mais a doação de livros para o público infantil. “Já houve edições que conseguimos montar até duas árvores, uma voltada exclusivamente para o público infantil. Além disso, contamos também com a parceria e divulgação do projeto em algumas escolas da cidade”, conta Luisa.

Ela reforça a missão do projeto de incentivar os mais novos a consumirem cada vez mais livros, mas também deixa claro a intenção do projeto: abranger todas as idades, sendo crianças, adolescentes, adultos e idosos. “Recebemos livros que agradam todos os públicos, e talvez esse seja o grande diferencial da Árvore. Ela é feita por todos, e para todos”, completa.

A leitura traz um grande desenvolvimento para jovens e adolescentes em formação, com a melhora da fala e da escrita, além de servir como inspiração para pequenos escritores brilharem e explorarem os gêneros literários. 

Um exemplo dessa possibilidade é o jovem Conrado, que cresceu com o projeto. “Eu sempre gosto de lembrar da história do Conrado. Um rapaz que, na época, aos 13 anos, chegou à Árvore querendo doar exemplares do livro de poesias que ele mesmo havia escrito. Ele declamou algumas, emocionou muita gente, e desde então comparece à todas as edições do projeto”, relembra Luisa.

A edição de 2025 já está confirmada, com os últimos detalhes sendo definidos, e em breve mais informações serão divulgadas nas redes sociais. Os pontos de recolhimento de doação também serão definidos, e normalmente ficam em locais de grande movimento na cidade.

“O dia da Árvore que dá livros é sempre uma alegria para mim, e tenho certeza que esse ano não vai ser diferente. Nossa expectativa maior é justamente com a doação de livros voltados para o público infantil, para que possamos montar novamente uma Árvore só para os pequenos”, finaliza Rosangela.

Roda de leitura infantil

Em 2025, mais um projeto surgiu em Nova Friburgo. A Sala de Leitura e Livraria Tangolomango (Praça Getúlio Vargas, 105 - loja 13) que veio com a proposta de ser um espaço acolhedor voltado para a literatura infantil. Laerte Vargas, contador de histórias e idealizador do espaço, tem uma vasta experiência na área, atuando há mais de 30 anos como contador de histórias e facilitador de oficinas.

Entre seus projetos na livraria, estão: a roda de leitura, que acontece em sábados programados, focado na narração de histórias, e o TEiA, projeto voltado para crianças neurodivergentes que estão dentro do Transtorno de Espectro Autista (TEA).

Para Laerte, “um equívoco comum é tratar a leitura como hábito, o que faz parecer que é uma prática que pode ser feita maquinalmente, sem o necessário envolvimento e comprometimento. Leitura é prazer, não pode ser praticada sem envolvimento integral”.

Ele também explica que atualmente existe um grande investimento das editoras em livros desse gênero. Mas observa que muitos pais incentivam a leitura e disponibilizam os livros para os filhos durante a primeira infância, após a entrada na fase escolar, pressupõe que os professores devem ficar exclusivamente com essa tarefa.

A livraria também fica aberta para visitação de escolas, que querem promover um contato maior entre os livros e seus alunos. “A leitura, para ser rica e plural, demanda um investimento contínuo das famílias em livros e atualização acerca das obras que estão sendo lançadas e que possam contribuir para o crescimento dos filhos como leitores”, completa.

Para maior incentivo da leitura, a livraria criou o Clube de Leitura Câmara Cascudo, uma forma de estender e facilitar o acesso aos livros por propiciar descontos aos frequentadores e clientes da loja. A partir da pontuação de livros lidos, o associado acumulará pontos que serão revertidos para a aquisição de novos livros. E também, foi criado um ponto de leitura, disponibilizando livros para empréstimo gratuito, que está sendo viabilizado na parte externa da loja.

Literatura para crianças neurodivergentes

Para as crianças com TEA, o papel da leitura é ainda mais necessário e resulta em uma maior compreensão de mundo. Os livros também ajudam na percepção de empatia, desenvolvimento cognitivo, comunicação e socialização, resolução de conflitos e autonomia. Além disso, é importante a menção e protagonismo de personagens neurodivergentes nos livros, para gerar representatividade e identificação das crianças na hora da leitura.

Na cidade, o projeto TEiA, feito pela livraria Tangolomango, busca promover o desenvolvimento cognitivo e social das crianças, com a narração de histórias e contos, e atividades especiais, voltadas para a necessidade delas. Quem conduz as atividades é a psicopedagoga Viviane Thomaz, com a coordenação de Vera Veronese, educadora e especialista na elaboração e execução de projetos literários, e com assessoria do Contador de Histórias e Arte Educador Laerte Vargas. As atividades são voltadas para momentos lúdicos, com atividades de leitura de contos de fadas, parlendas e poesia.

O projeto oferece quatro encontros mensais, para grupos de até quatro crianças por vez, e estão com inscrições abertas. Antes da participação nas atividades, é feito um momento de avaliação com os pais, para reconhecer o comportamento de cada criança. Inicialmente, o projeto trabalha com crianças do Nível I, o grau mais leve do TEA.

“O primeiro passo é o interesse das famílias pelos títulos que tratam do tema. Eles já estão disponíveis na loja e devem ser o preâmbulo para participação nos grupos, por tratarem de situações comuns às crianças inseridas no Espectro Autista. Após isso, é marcada uma entrevista com as profissionais para exposição precisa das etapas do trabalho. O valor pago pelos pais cobre os custos do projeto, como os profissionais envolvidos e materiais utilizados”, explica Laerte.

O contador de histórias finaliza dizendo que, “a inclusão e o desenvolvimento de crianças neurodivergentes estiveram presentes desde o processo embrionário da Tangolomango, com escolhas de livros que promovem a conscientização e o desenvolvimento delas. No projeto, as crianças também podem vivenciar a ambiência de uma livraria”.

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TAGS: Literatura | TEA