O silencioso abandono em que se encontra o Centro de Arte de Nova Friburgo

Um dos mais importantes equipamentos culturais da cidade, está fechado desde 2011
quarta-feira, 05 de novembro de 2025
por Ana Borges
Foto: Henrique Pinheiro
Foto: Henrique Pinheiro
Dificilmente haverá um friburguense que não tenha alguma história, um momento vivenciado, uma experiência que seja, para contar sobre o Centro de Arte. Inaugurado em 16 de maio de 1961, pelo então prefeito Amâncio Azevedo, a criação do espaço atendeu o pedido de um grupo de artistas amadores que queria transformar o antigo porão abandonado do antigo “Casarão do Barão”, que na época era a sede da prefeitura, em um Centro de Arte e Cultura. Um dos idealizadores da proposta, Heródoto Bento de Mello foi o primeiro diretor do estabelecimento.

A longa espera pela reabertura tem sido uma luta inglória da comunidade artística local
O “Porão da Arte”, como muitos o chamam até hoje, foi cadeia pública, e como testemunhas desse passado sombrio, permaneceram as grades de ferro em suas janelas; depois virou depósito de entulhos, móveis velhos e de arquivo morto. Até se transformar num local de criação artística e cultural, e mais, de encontros. O primeiro piano, por exemplo, só foi adquirido porque contou com o apoio de empresas e fábricas locais, além do Ministério da Educação.

No final de 1962, foi fundado o primeiro grupo de teatro da cidade — o Teatro Experimental do Centro de Arte, o Teca). Bebete Castillo, que deu nome ao teatro do Centro, foi a primeira mulher a se associar ao Teca e a única na cidade, que, na época, sabia administrar o setor de iluminação das peças. 

O Centro de Arte possui (ou possuía) três salas para exposição, além do teatro com cerca de 150 lugares. Durante décadas viveu para revelar talentosos(as) artistas de todas os setores. Promoveu exposições, instalações, peças teatrais, shows, debates, exibição de filmes. Tudo ali tinha vez e voz, o lugar era um farol que indicava e atraía quantos se dispunham a exibir sua arte, o que criava, inventava, imaginava.

Até que a tragédia provocada pela inundação que devastou a cidade, em 2011, destruiu o Centro de Arte. E destruído continua, 14 anos depois. Abandonado e sem perspectiva de reabertura, mesmo assim, artistas e sociedade civil, de diversos áreas, não desistiram de tentar. Se uniram para exigir providências do poder público para devolver o espaço à comunidade, fazendo incontáveis reuniões, elaborando manifestos, criando abaixo-assinados, campanhas, protestos, o que fosse para o governo municipal agir. 

#voltacentrodearte

“Por estar num nível ainda mais baixo que o porão, o Teatro Bebete Castillo é sempre a área do prédio que mais sofre com enchentes, e foi a parte mais atingida pela inundação de 2011. A água cobriu as poltronas e alcançou metade das paredes. Destruiu cabeamento, equipamentos de som, iluminação, as instalações próprias de um teatro, como a acústica que requer um revestimento especial, enfim, perda total. Perdemos as tábuas corridas do palco devido ao tempo em que ficaram submersas na lama, pela dificuldade de removê-la”, explicou Luís Fernando Folly, presidente da Fundação D. João VI, responsável pelo Casarão, onde funcionava o Centro de Arte. 

A reabertura foi sendo atrasada por uma série de fatores, incluindo as exigências de adequação às normas de segurança dos bombeiros, problemas com a empresa licitada e o fato de o prédio ser tombado como patrimônio histórico, o que restringe alterações na estrutura. 

Em 2020, a classe artística friburguense criou o movimento “Volta Centro de Arte” — #voltacentrodearte —, que além de lutar pelo retorno do espaço, também desejava ser ouvido para a execução do projeto de reforma. O que não aconteceu diante da licitação de uma empresa para a reforma, no governo do então prefeito Renato Bravo. O projeto previa 47 lugares na plateia do Teatro Bebete Castillo, o que, na visão dos artistas, inviabillizava financeiramente a produção de qualquer espetáculo para uma plateia tão reduzida. 

Desde então, nada de obras no Centro de Arte de Nova Friburgo, nenhuma novidade. O último avanço significativo acabou sendo a aprovação do projeto pelo Corpo de Bombeiros, em 2021. Mas, devido a entraves documentais e burocráticos, surgiram dificuldades no andamento do processo, como questões de titularidade do imóvel, aprovação de projetos de segurança, adequação às normas de patrimônio histórico e um possível reajuste no orçamento. 

 Mas, o friburguense ainda tem esperança de ver aquele “porão” iluminado, cheio de gente, e ouvir aplausos no pequeno e tradicional Teatro Bebete Castillo. 
 

  • Foto: Arquivo AVS

    Foto: Arquivo AVS

  • Foto: Arquivo AVS

    Foto: Arquivo AVS

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