14 de janeiro - Dia Internacional da Pipa

Uma tradição que resiste e colore o céu de Nova Friburgo
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
por estagiária Laís Lima com supervisão de Henrique Amorim
Foto: Freepik
Foto: Freepik

Em épocas de férias escolares, basta olhar para o céu para perceber um espetáculo que atravessa gerações: as pipas. Coloridas, leves e conduzidas pelo vento, elas transformam a paisagem e despertam memórias afetivas, tanto em crianças e jovens quanto em adultos.

O brinquedo simples, feito tradicionalmente com armação de bambu, papel e linha, carrega uma história milenar e segue vivo em diferentes culturas ao redor do mundo, inclusive em Nova Friburgo, onde soltar pipa faz parte do cotidiano e da identidade cultural de muitos moradores.

Muito além de uma brincadeira, empinar pipa envolve técnica, paciência, criatividade e convivência. É a emoção de vê-la subir aos céus, dançando conforme o vento, e também o desafio de mantê-la no ar. Em muitos lugares, essa prática ganhou proporções maiores e se transformou em festivais que reúnem milhares de pessoas, com competições, exibições artísticas e celebrações culturais.

Origem das pipas

Dependendo da região, a pipa muda de nome. No Brasil, pode ser chamada de pipa, papagaio, arraia, peixinho, morcego, curica, entre outros. Independentemente da nomenclatura, o encanto é universal. A história aponta que o artefato surgiu por volta de 1.200 a.C., na China, inicialmente com fins militares. No Brasil, chegou em 1596, trazido pelos portugueses durante a colonização, e desde então se espalhou pelo país, formando uma legião de apaixonados.

Essa devoção fez com que a pipa ganhasse uma data especial no calendário mundial. Celebrado em 14 de janeiro, o Dia Internacional da Pipa surgiu em 1989, na Índia, mais precisamente no estado de Gujarat, famoso pela realização de grandes festivais dedicados ao brinquedo. A data é lembrada em diversos países, cada um à sua maneira, reforçando o valor cultural e simbólico da prática.

Festivais que enchem o céu de cores

Mais de 30 países promovem festivais de pipa, muitos deles com premiações para a maior, a menor, a mais criativa ou a que voa mais alto. Na China, a cidade de Weifang, na província de Shandong, abriga desde 1984 o maior festival anual de pipas do mundo, realizado em abril, durante a primavera. O evento dura oito dias, reúne equipes de diversos países e transformou a pipa em símbolo oficial da cidade. Weifang também abriga o Museu Mundial de Pipas, que preserva a história e a evolução desse artefato ao longo dos séculos.

Na Índia, o tradicional Kite Festival tem forte ligação religiosa e cultural. Celebrado sempre em 14 de janeiro, marca o fim do inverno e o início da primavera no calendário hindu, simbolizando renovação e novos começos. Em Gujarat, onde se concentra cerca de 40% da indústria de pipas do país, o festival movimenta a economia local e atrai milhares de pessoas, que se reúnem em sacadas e telhados para empinar pipas e compartilhar comidas típicas. Apesar do espetáculo visual, o uso do cerol ainda é permitido em algumas regiões, o que representa riscos à população.

A tradição no Brasil

No Brasil, festivais de pipa acontecem em diversos estados, como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Roraima. Neste último, o evento é realizado desde 1975 e tem grande importância cultural. Em Boa Vista, no Parque Anauá, o Festival de Pipas de Roraima reúne participantes do Brasil, da Guiana e da Venezuela. O uso de cerol é proibido, garantindo uma festa segura, geralmente associada às comemorações do Dia das Crianças. As competições premiam as pipas mais bonitas, criativas, maiores e as que alcançam maior altura.

Mudam-se os países, mas o objetivo permanece o mesmo: reunir amigos e familiares, resgatar a brincadeira de infância e transmitir às novas gerações uma tradição que atravessa séculos.

Entre o vento e as montanhas

Em Nova Friburgo, soltar pipa faz parte da memória afetiva da cidade. Entre montanhas e ventos característicos da região, a prática ganha um cenário especial. Assim como os festivais que marcam o calendário cultural friburguense, empinar pipa representa encontro, convivência e expressão popular. É comum ver crianças, jovens e adultos ocupando espaços abertos, transformando momentos simples em manifestações culturais.

Para o friburguense Emanuel Ramos, de 25 anos, soltar pipa vai além da diversão. “Traz uma mistura de aventura e competitividade. A emoção começa ao conseguir colocá-la no ar e aumenta quando surgem as disputas com outras pipas, tentando cortar as linhas. Tem também a adrenalina de sair correndo pelas ruas atrás das pipas que ficam soltas no céu. E, quando o vento não ajudava, a gente cantava ‘Vem vento, caxinguelê, cachorro-do-mato quer me morder’, na esperança de o céu colaborar”, relembra.

Muito mais do que brincadeira

Soltar pipa é uma atividade que ensina. Desde a confecção do brinquedo até o momento em que ele ganha os céus, há aprendizado envolvido. Desenvolvem-se habilidades manuais, criatividade, noções básicas de física, geometria e até trabalho em equipe. Em tempos dominados por telas, a prática se destaca como um convite ao convívio social e ao contato com o ambiente externo. Parques, praças e terrenos abertos se tornam espaços de troca, onde histórias, técnicas e cores se misturam. É um resgate da simplicidade e da importância de viver o presente.

Passo a passo para empinar pipa com segurança

Para quem deseja manter viva essa tradição, alguns cuidados são essenciais. A pipa deve estar bem montada, com varetas firmes e papel esticado. O vento ideal é moderado: fraco demais não sustenta a pipa, forte demais pode danificá-la. O impulso inicial deve ser suave, soltando a linha aos poucos, sempre mantendo o controle. E, acima de tudo, é fundamental escolher locais abertos, longe de redes elétricas, ruas movimentadas e jamais utilizar cerol.

Entre cores, linhas e vento, a pipa segue voando alto, conectando passado e presente, ela continua sendo símbolo de infância, cultura e encontro, uma tradição simples, mas carregada de significado, que insiste em colorir o céu.

Cuidados e perigos ao soltar pipas

Apesar do caráter lúdico, a prática de soltar pipas pode se tornar extremamente perigosa quando realizada sem os devidos cuidados. Todos os anos, acidentes graves e até fatais são registrados em razão do contato das pipas e linhas com a rede elétrica, além do uso de materiais inadequados. Veja algumas orientações:

·Fique longe da rede elétrica: Empine pipas apenas em locais abertos, como parques e campos, longe de fios e postes.

·Nunca tente resgatar pipas presas: Não jogue objetos nem tente retirar pipas enroscadas em fios, postes ou antenas. Apenas técnicos especializados podem fazer esse trabalho com segurança.

·Evite materiais metálicos: Alumínio e outros metais conduzem eletricidade e podem causar choques fatais.

·Cuidado com rabiolas: Elas podem se prender à fiação elétrica, provocar desligamentos e choques, muitas vezes com consequências graves.

·Nada de chuva: Pipas molhadas conduzem energia e podem funcionar como para-raios.

·Cerol é perigoso: O pó de vidro com cola pode romper cabos elétricos, aumentando o risco de choques.

·Linha chilena é ainda mais perigosa: Tem alto poder de corte, oferecendo risco grave a pedestres, motociclistas e à rede elétrica.

·Crianças devem ter supervisão: A presença de um adulto responsável é fundamental durante a brincadeira.

 

  • Foto: Henrique Pinheiro

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