Os desenhos animados no processo de educação das crianças

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 28 de julho de 2026
por Tereza Malcher

Abordar os desenhos animados aqui, na coluna “Momentos literários”, é pertinente porque todo desenho está estruturado a partir de num roteiro, que, por sua vez, encontra fundamentos na literatura.

Fiquei impactada ao assistir à entrevista realizada em 23 de junho, pela TV Zoom, intitulada “Geração das telas: quem está formando nossos filhos?”. Foi dinamizada pelo advogado, empresário e incentivador cultural Roosevelt Concy, contando com a participação do professor doutor Hamilton Werneck, pedagogo, escritor e palestrante e da doutora Carmem Lúcia Gobel Coelho, psicóloga clínica e escolar, com doutoramento em desenvolvimento cognitivo, que abordou as influências e consequentes desdobramentos que o uso do celular e outros meios de comunicação exercem no processo de crescimento e desenvolvimento afetivo, mental e social das crianças e jovens, o que têm trazido preocupações  aos pais, profissionais da educação e à sociedade em geral.

Diversos tópicos decorrentes foram apresentados que demandam profundas reflexões e interferem na vida da criança e do jovem, podendo causar distúrbios afetivos, dificuldades de adaptação à rotina, dentre outros. O excesso de informações, o aperfeiçoamento contínuo desses meios, o respaldo insuficiente das Ciências Humanas e a falta de presença dos pais na vida quotidiana dos filhos, muitas vezes, impedem ações para prevenir os males decorrentes do uso indiscriminado desses artefatos tecnológicos tão disponíveis e de fácil acesso. 

Um dos temas abordados foi como os desenhos animados agem no processo de formação da criança e do jovem. Desde a época da animação clássica, como os filmes “Tom e Jerry”, os desenhos dialogam com crianças, jovens e adultos. Suas apresentações, carregadas de significados, têm magia e seduzem, especialmente sobre os espectadores infantis e juvenis. Acompanham gerações. Entretanto, desde sempre, os desenhos animados da Disney receberam ressalvas por serem considerados estereótipos sociais e racistas, reforçadores de padrões de beleza femininos irreais, machistas, dentre outras questões.

Os desenhos animados são carregados de símbolos, signos e filosofias. Primeiramente, no roteiro, nenhuma palavra é usada por acaso nem tão pouco um traço ou uma cor. Como toda obra, a animação nasce de uma folha e uma tela em branco, que são preenchidas intencionalmente. As imagens interagem no inconsciente do espectador, que ao mesmo tempo em que podem transmitir alegria, inocência e amor, apresentam personagens malévolos, até diabólicos. Como na literatura há as entrelinhas, no desenho há intervalos vazios.

Comumente, os sentidos das cenas não estão nos diálogos, mas na silenciosa relação dos personagens entre si e com o ambiente. Como a intenção dos artistas permeia todas as cenas, o desenho animado pode ser comparado a um espelho que revela a verdadeira essência dos artistas.

Os filmes de animação, frequentemente assistidos pelas crianças em telas de celulares ou tablets, tornam os espectadores em receptores passivos, que assimilam as mensagens sem possibilidades de interagir. Antes de elaborar este texto, assisti aos desenhos animados. Recostada na poltrona, coloquei o celular na minha frente e assisti a filmes de animação destinados a crianças pequenas durante dez minutos. Propositalmente, não tirei os olhos da tela.

Quando o filme acabou, olhei ao meu redor e percebi a diferença dos universos. Senti espanto. O do desenho animado penetrou em mim através dos sons e imagens de modo quase hipnotizante. Fui, de fato, uma espectadora que não consegui pensar dado os estímulos fortes e contínuos que recebia. Ao me ver em outro universo, o real, a sala da minha casa, tive a impressão de que era um lugar quase estranho. Então, retornei ao desenho por instantes e, novamente e repetidamente, desviei o olhar da tela, olhei ao meu redor e fui percebendo a imensa diferença entre um e outro.

As impressões do desenho eram tão fortes que quase me sequestraram da realidade. Principalmente pelas imagens que passavam em frações de segundos, que só me permitiam captá-las, sem tempo de refletir a respeito. Constatei que o filme era como um rolo compressor que me seduzia a cores e sons.

E o que acontece com a criança, cujas atividades mentais estão se desenvolvendo? Quais interferências poderá exercer nesse delicado e complexo processo?

Hoje, muitos desenhos transmitem conteúdos com pouca riqueza em termos de valores, conhecimento e informações sobre o mundo real em que a criança vive. Ao passo que a realidade é múltipla e diversa, carregada de patrimônios afetivos, naturais e culturais. E a criança tem muito o que conhecer e refletir para se tornar um sujeito íntegro, produtivo e interativo.

Os desenhos animados são uma oportunidade que os artistas e os meios de comunicação possuem para contribuir para a vida no nosso planeta.  E, aí, deixo uma pergunta que está me incomodando: os desenhos animados podem ser considerados agentes formadores?

Se formadores, que sujeitos estão pretendendo criar? Será que, para seus investidores, os fatores econômicos estão sempre sobrepostos aos valores éticos?

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Tereza Cristina Malcher Campitelli

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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