Há datas que celebram profissões, outras que marcam acontecimentos históricos e algumas que nos lembram daquilo que nos torna profundamente humanos. O Dia Internacional da Dança, celebrado nesta quarta-feira, 29, pertence a essa última categoria. Mais do que homenagear uma manifestação artística, a data reconhece uma das linguagens mais antigas da humanidade: o corpo em movimento como forma de expressão, pertencimento e transformação.
Antes mesmo da palavra, o corpo já falava. Antes do palco, já existia rito. Antes da técnica, havia impulso. Dançar sempre foi mais do que executar passos ensaiados, foi sobreviver, celebrar, resistir, amar e contar histórias sem depender da voz. Em suas mais diversas formas, do ballet clássico ao funk, do samba ao contemporâneo, da dança de salão às manifestações populares e urbanas, a dança ultrapassa o entretenimento e se firma como instrumento de identidade cultural e construção coletiva.
Exemplos friburguenses
Em Nova Friburgo, essa força encontra eco no trabalho da Cia de Dança Pedro Prince, fundada em 2025 e formada por 17 artistas vindos do samba e do funk, com foco na valorização cultural e artística das comunidades. À frente do projeto está Pedro Prince, artista, coreógrafo, diretor artístico e produtor cultural, com mais de 15 anos de trajetória.

Atuante desde a infância, ele construiu sua caminhada entre o funk, o samba e o carnaval, passando por grupos das regiões Serrana e dos Lagos, além de agremiações como as escolas de samba Alunos do Samba, Unidos da Saudade, Bola Branca, Globo de Ouro e Raio de Luar, onde conquistou, em 2024, o prêmio de Melhor Comissão de Frente da Série A.
Hoje, com o espetáculo “As histórias do funk e do samba”, apresentado em teatros e festivais como a Usina Cultural Energisa e o Festival de Inverno, Pedro transforma palco em território de memória e valorização cultural. Sua companhia não apenas dança, ela conta histórias, resgata ancestralidades e reafirma que a arte também nasce da comunidade, da rua e da vivência popular.
Mestre-sala e integrante da companhia desde o início, Guilherme Coelho define essa vivência como um espaço de liberdade e reconhecimento: “Estar nessa companhia me traz uma satisfação gigante, pois é onde tenho voz e vez de expressar o que sentimos e vivemos através da dança. Levar a arte em forma de sonhos, poesias, músicas, histórias, ancestralidade e principalmente a realidade de quem vive da arte, coisa que não é fácil”.
Para ele, o palco é o lugar onde sentimentos ganham forma e alcançam o outro: “Eu me sinto livre quando estou nos palcos, de externar todos os sentimentos mais sinceros através da dança.”
Já a rainha de bateria, Jheniffer Andrade, também enxerga a dança como uma linguagem que vai além das palavras. “É um misto de frio na barriga com uma felicidade enorme. É muito bom dividir o palco, sentir a energia de todo mundo junto, saber que cada um ali está vivendo aquele momento com a mesma intensidade”, conta. Para ela, a dança ocupa um espaço íntimo e essencial: “É onde eu consigo colocar para fora o que às vezes nem sei explicar com palavras.”
A experiência de Erika Lima, musa e Princesa do Carnaval, reforça o poder transformador dessa arte: “A dança foi um verdadeiro divisor de águas na minha vida. Em um momento delicado que eu estava enfrentando, ela surgiu como uma forma de apoio e transformação”. Ela destaca que os ensaios e a convivência com outros bailarinos trouxeram leveza e alegria para seus dias. “Participar deste projeto ao lado do Pedro tem sido uma experiência única e muito significativa. É um espaço onde emoção e cultura se encontram.”
Entre as bailarinas de funk da companhia, Thays Silva e Karolyne Fernandes ampliam ainda mais essa percepção da dança como cura, conquista e permanência. Thays relembra que nunca imaginou ocupar grandes palcos.
“Na verdade, eu nunca imaginei que o palco seria a minha casa. Hoje, com a companhia e principalmente com a dança, já alcancei lugares que jamais imaginei.” Para ela, a arte cura “nos sentidos possíveis e impossíveis”, e transforma sentimentos em movimento. Karolyne compartilha a mesma entrega: “Nos meus piores momentos, a dança me salvou, e posso dizer que me salva todos os dias. Foi através dela que me mantive em pé e aprendi a ver a vida com mais leveza.”
O diretor de passistas, Márcio Acário, também destaca a companhia como parte essencial de sua trajetória profissional e pessoal. Para ele, integrar a Cia de Dança Pedro Prince representa aprendizado constante e aperfeiçoamento no trabalho desenvolvido dentro do carnaval. “Fazer parte da companhia é uma peça fundamental para o meu aprendizado e aperfeiçoamento como diretor da ala de passistas, ajudando a ter e exigir disciplina, consciência corporal e outros atributos”, explica.
Márcio reforça que a dança agrega valores que ultrapassam o palco. “Além de fazer bem para o corpo, auxilia na cura da alma. Sou muito grato por tudo isso.”
Além dos palcos
Celebrar o Dia Internacional da Dança é, portanto, reconhecer muito mais do que o espetáculo final. É olhar para professores, coreógrafos, bailarinos, produtores, técnicos e artistas que transformam sensibilidade em trabalho diário. É entender que a dança não acontece sozinha: ela nasce do encontro entre disciplina e emoção, entre técnica e afeto, entre indivíduo e coletivo.
Talvez seja justamente por isso que ela permaneça tão necessária. Porque dançar, no fundo, nunca foi apenas sobre passos certos, mas sobre continuar em movimento. E viver, afinal, também exige dança.

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