A Praça Getúlio Vargas, no coração de Nova Friburgo, guarda muitas histórias que cruzaram suas alamedas de eucaliptos, como as grevilhas, as árvores de flores alaranjadas e folhas recortadas, que também estavam ali plantadas, junto ao parquinho infantil, e que teriam sido presentes de um antigo cônsul japonês.
"A solução técnica encontrada por Glaziou foi, então, introduzir o Eucalyptus robusta (frequentemente confundido com nomes como "eucalipto arbustus"). Nativo da Austrália"
Com a atual obra de reforma da praça, tombada pelo patrimônio histórico em 1971, circulou nas redes sociais nos últimos dias, informações de que algumas dessas árvores cortadas tinham um valor "histórico e simbólico” e que estavam saudáveis ao serem derrubadas. A lenda, intrigante, acaba de cair por terra diante da análise botânica e dos registros históricos, que A VOZ DA SERRA conseguiu levantar.
1. DNA australiano, não japonês
A espécie em questão é a grevilha-gigante (
Grevillea robusta). Ao contrário do que dita o imaginário popular friburguense, ela não tem origem no Japão, mas sim no leste da Austrália (regiões de Queensland e Nova Gales do Sul).
Um cônsul japonês, em visita a Nova Friburgo, em 1977, seis anos após o tombamento da praça, teria vindo inaugurar uma placa em comemoração do cinquentenário da colonização japonesa no município. Porém, fotos de arquivo que ilustram esta matéria comprovam que as grevilhas já estavam plantadas na praça.
A confusão provavelmente nasceu da semelhança estética com árvores orientais ou pela presença histórica de cerejeiras (sakuras) em outros pontos da cidade. No entanto, a grevilha foi escolhida por sua robustez e adaptação ao clima serrano, servindo como uma sucessora natural na composição da massa verde da praça.
2. O projeto de Glaziou: A engenharia do eucalipto
Para entender por que a praça é repleta de espécies da Oceania, é preciso voltar ao século XIX. O projeto original é do paisagista francês Auguste François Marie Glaziou. Na época, o centro de Nova Friburgo era uma área pantanosa.
A solução técnica encontrada por
Glaziou foi, então, introduzir o
Eucalyptus robusta (frequentemente confundido com nomes como "eucalipto arbustus"). Nativo da Austrália, esse eucalipto funciona como uma "bomba biológica", capaz de absorver grandes quantidades de água e drenar o solo. Sem eles, a praça como conhecemos hoje sequer existiria.
3. Blindagem do Patrimônio: O tombamento de 1971
A Praça Getúlio Vargas não é apenas um jardim; é um monumento nacional. O seu reconhecimento oficial como patrimônio histórico e paisagístico é o que garante que seu desenho não seja alterado por caprichos políticos.
O processo foi iniciado em 1971 (Iphan 833-T-71).
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O que o tombamento protege: O traçado dos jardins, o mobiliário urbano e, crucialmente, a composição arbórea. Isso significa que as árvores são consideradas "pedras" fundamentais dessa arquitetura viva.
4. O desafio atual: O TAC e a segurança pública
Atualmente, a praça vive um impasse delicado. Muitas das árvores — tanto os eucaliptos remanescentes quanto as grevilhas — atingiram o fim de seu ciclo biológico (senescência). O risco de queda em dias de ventos e chuvas fortes é real.
A gestão da praça está atualmente sob um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta). Trata-se de um acordo jurídico entre a Prefeitura de Nova Friburgo, o Ministério Público e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Devido à natureza judicial desse processo, a Fundação Dom João VI e outros órgãos municipais mantêm cautela em suas declarações, por isso lançamos mão do que podíamos levantar com dados já publicados do Arquivo Nacional.
Conclusão: Um monumento vivo em mutação
A Praça Getúlio Vargas é um organismo vivo. A descoberta de que as grevilhas são australianas e a compreensão de que os eucaliptos foram ferramentas de engenharia de Glaziou mudam a forma como olhamos para o nosso patrimônio. O silêncio imposto pelos trâmites jurídicos do TAC não esconde a urgência: é preciso renovar a floresta urbana para que o título de "patrimônio" não se torne apenas uma lembrança de algo que caiu.
Fontes: Processo do IPHAN (833-T-71). Nele, consta a descrição do que deve ser preservado. O Laudo do TAC: O Termo de Ajustamento de Conduta geralmente é um documento público no Ministério Público (MPRJ). Lá consta exatamente quais árvores precisam ser substituídas e por quê.
*Com auxílio da IA
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